sábado, 1 de julho de 2017

CÂNONES


A edição de banda desenhada tem vivido alguma pujança, marcada pelas constantes coleções com jornais, cuja regularidade aparentemente prova a existência de um mercado até há pouco insuspeito, e focado em diferentes tipos de estilos narrativos. Mas é preciso também (ou sobretudo) destacar trabalhos editoriais muito relevantes pela diferença que aportam. É o caso da Mmmmnnnrrrg/ChiliComCarne, e da sua aposta em autores como o finlandês Tommi Musturi, como na excelente edição de “Simplesmente Samuel”. Claro que se há coisa que esta editora procura não é, certamente, ser consensual; e muitos leitores abordarão o estilo caricatural/simbólico das coloridas BDs mudas de Musturi como uma perda de tempo, porque “não há história, não se passa nada”. E é pena.

Em “Simplesmente Samuel” de facto não existe bem um argumento, antes conceitos que definem os deambulares de uma estranha personagem desenhada de forma aparentemente inofensiva e infantil através de um universo feito de traços decididos e cores fortes, que contrastam com o surrealismo onírico. Mas as aparências iludem, e, de modo quase orgânico, para além de um tom de descoberta permanente, vão surgindo elementos estranhos, misteriosos, sexuais, escatológicos, violentos. Com o branco da personagem a assumir-se, não enquanto pureza ou inocência, mas como algo a ser contaminado pelas influências que encontra no caminho. A viagem de Samuel através das páginas transforma-se pois numa estranha meditação sem palavras, contada apenas em desenhos. Se os temas e soluções de Musturi evocam inapelavelmente o norte-americano Jim Woodring (n. 1952), e o seu “Frank” em particular, limitá-los a essa comparação é também injusto. No seu trabalho há ainda o recurso regular a elementos que evocam a história da banda desenhada e cinema de animação. Na verdade, a um certo ponto o branco de Samuel assume-se (via a presença de um sósia do cão Milu) como semelhante à inexpressividade de Tintin, corpo branco onde os leitores se podem projetar a si mesmos. Noutras situações a atividade construtora da personagem evoca Chris Ware.
Mas nos momentos mais interessantes de “Simplesmente Samuel” é mesmo a própria iconografia da BD que é questionada, como no “nascimento” da personagem, visto na perspetiva temporal inversa. Ou na forma como a relação espaço-tempo entre desenhos perde a lógica que faz parte das regras da BD, e onde se notam afinidades com o trabalho de Fred ou Marc-Antoine Mathieu. Ou ainda na plasticidade do cenário, que tanto pode submeter o protagonista, como submeter-se à sua vontade. Por último, e de modo ainda mais interessante, numa sequência que deveria ser ensurdecedora de acordo com os cânones da linguagem, mas na qual não se “vislumbra” um único ruído. Claro que se nota por vezes também um gosto de Musturi pela provocação, ou em desenhar cenários ou situações cuja justificação parece ser um estrondoso “porque sim”. Mas há inúmeras descobertas a fazer neste belo livro, onde se passa muita coisa. Só não se passa exatamente como noutras circunstâncias. 



Simplesmente Samuel. Conceitos e desenhos narrativos de Tommi Musturi. Mmmnnnrrrg. 160 pp., 20 Euros.




ESTÍMULOS


Na BD portuguesa, para além de autores com atividade tão regular quanto possível, têm igualmente lugar destacado “cometas”, vozes únicas que surgem, desaparecem, e regressam de forma imprevisível. Mas que, essencialmente, surpreendem. Uma delas pertence a Nunsky, e a sua mais recente proposta “Espero chegar em breve” (Mmmnnnrrrg) vale muito a pena. Já “Erzsébet” (Mmmnnnrrrg, 2014) tinha revelado um traço grosso com uso magnífico do negro, a lembrar Charles Burns, ao serviço de uma inesperada história de terror gótico protagonizada pela condessa húngara Erzsébet Báthory (1560-1614), uma assassina em série que procurava manter a juventude banhando-se no sangue de jovens raparigas. Neste caso a temática volta a tocar a fronteira entre estimulação e loucura, mas de uma perspetiva distinta.

Em “Espero chegar em breve” Nunsky adapta o conto “I hope I shall arrive soon”, publicado inicialmente como “Frozen Journey” na revista “Playboy” em 1980 por Philip K. Dick (1928-1982), um dos mais interessantes autores de ficção científica. Numa longa viagem intergaláctica um erro no sistema faz com que um passageiro, Victor Kemmings, acorde do sono criogénico que deveria durar toda a travessia. Paralisado, mas alerta, os dez anos de viagem que ainda faltam fazem com que Kemmings arrisque ficar louco, algo que o computador de bordo tenta evitar. A solução encontrada consiste em estimular a atividade cerebral do passageiro, fazendo com que se distraia com sonhos elaborados, construídos a partir de memórias da sua vida na Terra. Para garantir uma maior estabilidade emocional o computador utiliza tempos felizes, sugeridos pelo próprio Kemmings, que começa deste modo a (re)viver de forma artificial o passado.
Só que nunca se consegue revisitar a memória sem a contaminar, e, por mais que o computador tente, o cérebro de Kemmings apercebe-se das mentiras que lhe estão a querer contar, e recusa-as. No entanto, o computador não está programado para desistir e escolhe uma fuga para a frente, procurando produzir memórias que projetem o futuro, com a eventual chegada de Kemmings ao seu destino, construindo uma nova vida num planeta distante. A questão é que, por muito que trabalhe a lógica, não é possível ao computador levar em linha de conta as culpas e neuroses que jazem no fundo da alma humana, ou o modo retorcido como se integram num dia a dia que está a um erro do sistema de se tornar completamente disfuncional. Confrontado com simulações, Kemmings deixa de ser capaz de reconhecer a realidade, ou acreditar que ela possa existir, mesmo quando a normalidade parece regressar. As mentiras bem-intencionadas foram tantas que a verdade perdeu o valor absoluto. Não é que o conto de Dick tenha particular atualidade hoje, é que este é um tema que nunca perdeu atualidade, mas que o autor norte-americano formulou como muito poucos, a coberto da ficção-científica. E que Nunsky trabalha de forma brilhante, com o traço grosso e o uso do negro a iluminarem com as suas qualidades opressivas.

Apesar de mais linear do ponto de vista narrativo, “Erzsébet” tinha algo que “Espero chegar em breve” não tem. Espaço. Com mais cem páginas, a espiral de loucura da condessa Báthory desenhava-se de forma metódica, com um uso excelente de páginas mudas. Um luxo agora ausente, havendo um acumular de texto e algumas questões na legendagem; que, apesar da excelente ideia de letras em branco sobre fundo negro, é por vezes menos legível (sobretudo nas falas do computador). Mas esta é uma questão menor numa obra onde o questionar das fronteiras da consciência levanta mais uma discussão sobre o que é, na realidade, a realidade.


Espero chegar em breve. Argumento e desenhos de Nunsky (adaptando Philip K. Dick). Mmmnnnrrrg. 42 pp., 10 Euros.



FRONTEIRAS


Quando certos debates então na ordem do dia, muitas vezes há a tentação de considerar tudo quanto possa estar relacionado como tendo surgido como reação. Mas o oscarizado “Moonlight” fala de uma dupla ostracização (ser homossexual na comunidade negra norte-americana) muito anterior a 2017. Já a banda desenhada Rendez-vous em Phoenix” de Tony Sandoval (Kingpin Books) evoca a emigração ilegal para os EUA através da fronteira mexicana, matéria com longo historial em termos de representação. Mas, apesar da data em que foram concebidos, o momento em que são apreciados cola-se, inevitavelmente à “era-Trump”, no caso concreto do trabalho de Sandoval à tentativa por parte dos EUA de fechar (simbolicamente ou menos) fronteiras.

Fugindo dos registos anteriores do autor em termos temáticos, mas mantendo o traço semi-caricatural, Rendez-vous em Phoenix” é um relato autobiográfico da passagem do autor para os EUA, em busca de um futuro melhor. Só que esta é uma história distante das habituais, patentes em filmes como “Sin Nombre” (Cary Joji Fukunaga, 2009), ou o recente, e algo esquemático, “Desierto” (Jonás Cuarón, 2015). Desde logo é imediata a perceção de que Tony Sandoval não é o imigrante ilegal mexicano típico. A sua situação pessoal não é a mesma da maioria dos migrantes, e, para além de ter uma namorada norte-americana à sua espera (em Phoenix, no Arizona), a tentativa de passar a fronteira relaciona-se mais com alguma inconsciência juvenil e pressa em retornar aos EUA, que já visitara (legalmente), de modo a assumir o sonho de desenhar “comics” de super-heróis, do que com necessidade. Se é interessante ver representado percurso menos habitual, a distância é visível no modo como a história se desenrola, sobretudo na relação com os outros companheiros de aventura, com os quais se estabelece uma distância narrativa que a custo se transcende. Mas sobretudo o que transparece é mais inconveniência e repetição do que propriamente perigo, como se o autor vivesse uma versão mais radical de umas férias em percursos naturais pelo deserto; uma sensação que o traço de Sandoval não consegue ajudar a resolver, apesar da cor, sobretudo a luminosidade opressiva do branco, ser muito boa a definir o ambiente. 

O final do livro, o reencontro numa cidade cujo nome sugere novas oportunidades, não dá grandes indicações sobre o futuro a médio prazo (nem tinha de dar), mas não deixa de ser algo irónico que, apesar do sonho americano, Tony Sandoval esteja a fazer carreira sobretudo na BD francófona, nomeadamente na editora Paquet. Na verdade, “Rendez-vous em Phoenix” é um livro mais interessante que os algo pueris, mas profissionalmente consistentes, e premiados, registos de fantasia do mesmo autor (“As Serpentes de Água”, “Mil Tormentas”, também editados em Portugal pela Kingpin). Mas, e sem por em causa a honestidade do projeto, este livro parece sobrevalorizado pelo facto de Sandoval estar a fazer algo distinto daquilo a que habituou os leitores, num tema “sério” de relevo, mas sem grande profundidade. E com um estilo gráfico que lhe dá uma “leveza” que certamente não era o objetivo. O registo autobiográfico ou o glosar de um tema candente não são garantes automáticos de autenticidade ou qualidade, que por vezes se concede nestes casos, como se fosse um dado adquirido.

Rendez-vous em Phoenix. Argumento e desenhos de Tony Sandoval. Kingpin Books. 80 pp., 13 Euros.



DOR



Classificar o trabalho de António Jorge Gonçalves como “inclassificável” é uma opção possível, mas fácil. Em banda desenhada, ilustração, cartoon, cenografia ou performance há sempre uma componente temporal, um movimento que sugere percursos, não necessariamente uma narrativa. É certo que obras iniciais como “As aventuras de Filipe Seems” (argumentos de Nuno Artur Silva) tinham uma matriz de BD franco-belga afiliada à retoma contemporânea da “linha clara”, que se foi desvanecendo (em termos de história e estilo) no último volume da trilogia, nas colaborações com Rui Zink (“A arte suprema”, “Rei”), e em trabalhos a solo, como “O Sr. Abílio”, “Subway Life”, ou o mais recente “A minha casa não tem dentro” (abysmo).

Resultado indireto de um problema de saúde grave do qual o autor recuperou, mas que implicou uma intervenção cirúrgica complexa e uma convalescença longa, é importante dizer desde logo que, apesar de toda a atenção que (muito justamente) foi dada a este notável livro e à história da sua génese, “A minha casa não tem dentro” merece ser encarado de um modo “neutral”, no sentido em que o trabalho de António Jorge Gonçalves tem um poder evocativo, entre a maravilha e o medo, que transcende qualquer contextualização. Até porque, e apesar da tonalidade que este adjetivo em particular sempre carrega consigo, esta é uma obra acessível, certamente mais do que outros livros do autor, incluindo colaborações com argumentistas. Pode não o parecer a uma primeira vista/leitura, mas as palavras e imagens constroem, não bem uma narrativa, mas um conjunto evolutivo de momentos ou estados de espírito, sendo de destacar o uso de cor e sombra.
O livro não mistura palavras e desenhos, umas e outros fazem o seu caminho, com as palavras (obedientemente em quadradinhos) a resumirem memórias de diferentes instantes, e a balizarem conjuntos temáticos de imagens mudas de traço grosso, onde a cor promove acentos de azul e vermelho, a princípio separados, mais tarde juntos ou fundidos. O simbolismo é aqui para quem o quiser apanhar; e, depois de uma capa que não o parece, o próprio autor faz um aviso eloquente logo no início: cada leitor interpreta por sua conta e risco. Entre representações de caos organizado sobressaem alterações de escala, personagens sem rosto, e uma menina protagonista (?) que deambula num cenário feito de formas geométricas, pormenores de habitações mutadas, cenas mitológicas ou espetáculos circenses. A menina exerce apenas uma natural curiosidade, ou está à beira de se perder em perigos insuspeitos? As mãos que tudo apontam querem proteger ou esmagar? As multidões sem rosto representam um comentário irónico às típicas fotografias de família espalhadas pela casa, ou são um sinal de desagregação e perda de memória? António Jorge Gonçalves escolhe aspetos do familiar, e distorce-os numa visão febril onde se sentem evocações de isolamento, medo, dor, esperança. No final compreensivelmente otimista de “A minha casa não tem dentro” as figuras humanas surgem com caras concretas, as portas abrem-se para um branco que esperamos seja luz. (Sobre)vive-se, vence-se a dor, passa-se outro limiar.
Como, noutro registo, Diniz Conefrey, António Jorge Gonçalves parte de uma matriz com elementos e convenções da banda desenhada, adaptando-os a um ritmo que é apenas seu. Convidando cada leitor a fazer o mesmo. Sem pedir explicações, nem oferecer as suas em troca.



A minha casa não tem dentro. Desenhos e texto de António Jorge Gonçalves. abysmo. 150 pp., 20 Euros.



terça-feira, 7 de março de 2017

TEMPESTADES


Surpreender com familiaridade pode parecer um paradoxo, mas tem feito parte da essência do trabalho em banda desenhada de Diniz Conefrey. De Herberto Hélder (“Arquipélagos”/“Os labirintos da água”), ao México pré-colombiano (“O livro dos dias”), à BD abstrata (“Meteorologias”), a busca de formas e ritmos é contínua, criando ambientes hipnóticos compostos de cores, traços, texturas, palavras. O seu mais recente livro “Judea” (Pianola) adapta a novela “Youth”/“Mocidade”, de Joseph Conrad (1898), narrada pelo alter-ego putativo do escritor Charles Marlow, o mesmo de “Lord Jim” ou “Heart of Darkness”. E, se à primeira vista o livro surpreende pela aparente demarcação de um trilho criativo recente, a distância percorrida é curta; com “Judea” o autor ensaia alternativas que a princípio parecem mistas e de compromisso, mas que coalescem de modo inesperado numa nova síntese.

Tal como noutras obras de Conrad (e de Conefrey) “Judea” é um relato iniciático de viagem, apresentado enquanto memória de um Navio (ou de um marinheiro?) que perdeu as graças do mar (ou para quem o mar perdeu a graça). A história-base é falsamente simples: o velho veleiro enferrujado “Judea”, uma rota acidentada de Inglaterra ao Índico, uma carga de carvão no porão. Como se não bastassem os habituais riscos de uma longa aventura marítima (vento, calmaria, o mar revolto), esta viagem em particular parece amaldiçoada desde início, e, num culminar de adversidades, a carga entra em combustão espontânea. Sem que nenhuma estratégia consiga apagar o fogo, apesar de todos os esforços obstinados (quase românticos) para salvar um navio que se tenta transcender, a viagem torna-se um longo arrastar rumo a um fim inexorável, com a tripulação a tentar agarrar-se à vida pairando sobre uma bomba-relógio que a pode surpreender a qualquer momento. Se algumas personagens humanas adquirem voz própria, o principal protagonista é o próprio malogrado navio, cuja essência para os marinheiros oscila entre a única salvaguarda da fúria do mar, e o risco de destruição iminente que trás no seu âmago; com o céu, o oceano, e mesmo a terra firme e outros navios a evitarem conceder um porto seguro. É esta dualidade segurança/morte (e concreto/abstrato) que Diniz Conefrey trabalha, utilizando de modo soberbo o preto e branco, onde o desenho consegue a proeza de evocar cores (o vermelho do fogo, o azul do mar), que só as palavras do argumento têm o direito de expressar.

Considerando a evolução do olhar criativo é iluminador ver como o interesse na BD abstrata, visível no anterior “Meteorologias” (Quarto de Jade), é integrado em “Judea”, numa mescla de convoluções de penhascos, vagas, nuvens e fumo, que chegam a ocupar páginas inteiras com uma ferocidade insuspeita, e um estranho cunho de intemporalidade que toca todos os elementos. As diversas tempestades, sejam naturais (o mar, o vento, a costa), sejam artificiais (o fogo), sejam os humores da tripulação, são integradas numa só, com o contraste entre o traço preciso de personagens e motivos náuticos, e a força telúrica dos elementos mais abstratos a evocar um poder tanto mais violento quanto o texto o parece negar. Se a opção narrativa reconhecível é profundamente enriquecida pela abstração, esta, por sua vez, e usando o pretexto de ser mar/céu/fogo/fumo, poderia parecer oca sem a âncora que as madeiras podres e a angústia dos marinheiros lhe concedem. Desse ponto de vista “Judea” demonstra de que modo uma estrutura narrativa “clássica” pode ser útil enquanto uma espécie de base criativa reconhecível que “fixa” a leitura, permitindo, em simultâneo, a introdução de outro tipo de elementos disruptivos. A familiaridade é uma excelente ferramenta para desarmar espectativas, e permitir a construção de algo novo com o leitor, sem que ele disso se aperceba.

Judea. Argumento e desenhos de Diniz Conefrey (adaptando “Youth”/“Mocidade”  de Joseph Conrad). Pianola Editores. 84 pp., 16 Euros.




domingo, 5 de março de 2017

JUSTIFICAÇÕES


Quando tudo parece correr bem é difícil questionar o estado das coisas. Em contraposição, e considerando o mundo nos últimos anos, não deixa de ser natural que se privilegie hoje a reflexão sobre instituições e ideias que deveriam funcionar muito bem no papel, mas que já não parecem capazes de responder a novos desafios. Ou deveremos mesmo duvidar do papel em que foram inicialmente escritas?

O muito interessante “Democracia: Uma história sobre a coragem de mudar o mundo” (Bertrand) procura contextualizar o estabelecimento do modelo democrático inicial em Atenas, não só em termos das suas limitações, mas do modo como se relaciona com uma visão contemporânea das relações de poder e de quem o exerce, dois mil e quinhentos anos depois.  A aposta editorial está certamente ligada ao sucesso do livro anterior da mesma equipa gráfica, “Logicomix”, sobre a obra científica e filosófica de Bertrand Russell, mas se nesse livro o papel dos argumentistas Apostolos Dioxiadis e Christos Papadimitriou era decisivo, “Democracia” é um projeto pessoal do desenhador grego Alecos Papadatos, concebido com o argumentista Abraham Kawa. A história foca-se nas tribulações de um jovem ateniense, que conta as suas aventuras aos companheiros de armas antes da famosa batalha contra os persas em Maratona, com histórias dentro de histórias em que deuses, lenda e realidade se confundem. Graças a esses mecanismos narrativos percorre-se a história, política e governação da cidade de Atenas, quem exerce o poder, de que modo o exerce, e que outras alternativas se poderiam propor. Mas alternativas para quê, exatamente? De modo a garantir maior representatividade? Dar voz a quem não a tem? Apenas para assegurar pragmaticamente um governo onde as pessoas (as que tinham esse direito em Atenas, sublinhe-se) se sentissem ouvidas, mesmo que na verdade apenas fossem habilmente instrumentalizadas?
A ambição de tentar referir demasiados assuntos (por vezes com pormenores que levam muito tempo a enquadrar), fazem com que o resultado possa ser algo pesado, com um equilíbrio tenso entre História e estória. Ou seja: sente-se alguma dificuldade em criar situações e personagens que “cumpram” as funções expositivas que os autores delinearam sem isso parecer forçado. Mas é louvável o modo como se procuram evitar finais felizes artificiais e estereótipos, embora nem sempre seja possível, mormente do ponto de vista gráfico. Sobretudo é inevitável ler “Democracia” à luz contemporânea, e essa era uma intenção clara dos autores. As manobras políticas descritas ao longo do livro podem girar em torno das alterações para o primeiro modelo dito democrático em Atenas, mas é evidente que a democracia e o carisma heroico de uns podem ser o elitismo e a tirania de outros, e os fins acabam quase sempre por justificar os meios. 

Na verdade, as justificações de deuses e humanos sucedem-se em “Democracia”, mas não deixam de vincar que o poder é, simplesmente, aquilo que sempre foi: poder. Gerido com força, dinheiro, retórica. Nesse sentido é interessante ver os espartanos enquanto força militar ocupante, a arte clássica grega (vasos, estátuas, templos) enquanto veículo de propaganda; e sobretudo o Oráculo de Delfos enquanto Agência de Rating, ou uma qualquer entidade reguladora, tanto mais perigosa quanto é descaradamente manipulável sem o parecer. Também, como sempre, a manipulação tem intenções, e não é certo que as “boas” sejam necessariamente melhores do que as “más”. Embora o livro termine com uma mensagem de confiança, o caminho narrativo trilhado vai um pouco ao arrepio do subtítulo da obra, no sentido em que o mundo não pareceu mudar assim tanto, a vigilância tem de ser permanente, e todos os erros e atropelos podem ser justificados com boa fé, a pior fé de todas. Limitarmo-nos a repetir Churchill e defender que a Democracia é o pior sistema de governo à exceção de todos os outros é, hoje, uma escapatória curta.


Democracia: Uma história sobre a coragem de mudar o mundo. Conceito de Alecos Papadatos, história de Alecos Papadatos e Abraham Kawa, argumento de Abraham Kawa, desenhos de Alecos Papadatos com cores de Annie di Donna. Bertrand Editora. 240 pp., 19 Euros.



domingo, 19 de fevereiro de 2017

FAMÍLIA


Como dizia Tolstoi, as famílias felizes parecem-se todas; as famílias infelizes são infelizes cada uma à sua maneira; e, acrescenta-se, dão mais pano (ficcional) para mangas. Várias obras interessantes em banda desenhada abordam relações familiares e suas consequências, sendo particularmente notável “Saga”, escrita por Brian K., Vaughan com desenho elegante de Fiona Staples (G. Floy Studio). Nesta série a miscigenação, o racismo, ou as tensões nacionalistas, relacionais e geracionais, bem como a aprendizagem mútua constante que decorre disto tudo, são discutidos de uma forma pungente e realista; embora para tal se utilize um contexto alegórico de guerra e “space opera”, por detrás do qual se escondem questões reconhecíveis na sua simplicidade profunda.

Infelizmente o mundo real não permite escapismos, embora algumas das suas propriedades não fossem consideradas credíveis num registo de ficção-científica. No segundo tomo da autobiografia “O árabe do futuro” (Teorema) Riad Sattouf continua o relato de uma infância no Médio Oriente, focando a escolaridade na Síria de Hafez al-Assad nos anos 1980, e o modo como a sua família (não) se adapta a um contexto de penúria e controlo, onde a doutrina oficial e a hierarquia familiar são absolutas, e no qual a sua mãe (francesa), e sobretudo o seu pai (educado em França) têm dificuldades em assumir uma posição confortável. Na verdade, se a versão ingénua do Riad Sattouf-criança é importante para marcar a realidade (a desorganização, o racionamento, o ódio aos judeus, mas também a beleza do país e a “normalidade” das pessoas), fulcral mesmo é a posição do seu pai, incapaz de um olhar crítico que lhe permita resolver as incongruências entre a Síria que crê existir, e a que o seu filho vê. No fundo, Abdul-Razak al-Sattouf representa o dilema de todos os conflitos, na medida em que nem quem conhece os dois lados parece habilitado a intervir de forma útil. Embora mantenha todo o interesse, a verdade é que este segundo volume repete temas, algo que sublinha o problema maior do desenho: o traço caricatural, potenciado pela visão infantil, torna difícil não encarar a obra (também) enquanto caricatura.

Por fim, o imenso sul dos Estados Unidos de onde é natural o argumentista Jason Aaron, é retratado na série “Southern Bastards” e em “Má Raça” (G. Floy Studio), como um agregar de espaços minúsculos (físicos e mentais), onde a religião, o futebol americano, as armas e uma autoridade paternalista (entendidos enquanto diferentes formas de poder) são fatores identitários. Dotadas de desenhos apropriadamente diretos e “sujos”, nestas obras a noção de “família” tem mais a ver com um comungar de espaço e filosofia, e menos com relações de sangue. Pais e filhos (quase sempre no masculino) repisam dinâmicas violentas canónicas, e o talento de Aaron está no modo como cria interesse gerindo o óbvio. Se “Má Raça” é muito previsível, “Southern Bastards” tem o grande mérito de contextualizar de maneira credível o modo como certas tendências se reproduzem, humanizando no segundo volume o que no primeiro parecia arbitrário e abjeto.

Tal como Riad Sattouf, Jason Aaron é uma espécie de “arrependido” convicto, ambos olhando de fora para mundos que renegaram (por excelentes motivos). E estes olhares não devem servir, nem para ridicularizar com base na incompreensão, nem para aceitar acriticamente com base na tolerância. Mas para algo que ainda não fomos capazes de articular; porque a complexidade, por definição, não é simples. Se o mundo onde viveu Sattouf está subjacente a crises na Europa, o mundo onde nascem as histórias de Aaron facilitou a eleição de Donald Trump. Mundos onde os conflitos elaborados de “Saga” parecem quase utópicos. Brian K. Vaughan será talvez um otimista, mas, diriam Sattouf e Aaron, não viveu o que eles viveram. Talvez só criando (semi)ficções poderemos abordar realisticamente os verdadeiros problemas.


 
Saga 4 e 5. Argumento de Brian K. Vaughan, desenhos de Fiona Staples. G. Floy Studio. 150 pp., 11 Euros.
O árabe do futuro 2 (Ser jovem no Médio Oriente, 1984-1985). Argumento e desenhos de Riad Sattouf. Teorema. 160 pp., 19,90 Euros.
Má Raça (Men of Wrath). Argumento de Jason Aaron, desenhos de Ron Garney. G. Floy Studio. 136 pp., 11 Euros.
Southern Bastards vol 1 e 2. Argumento de Jason Aaron, desenhos de Jason LaTour. G. Floy Studio. 120 pp., 10 Euros.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

DIVINDADE


Uma das obras mais importantes dos últimos tempos é a monumental edição de “Miracleman” (G.Floy Studio), que inclui o material escrito para a revitalização da personagem por Alan Moore (não bem uma edição integral). O editor José de Freitas afirma que esta é a melhor BD de super-heróis que os fãs nunca leram. Porquê? No que diz respeito à primeira parte da afirmação, porque 1982 marca o início do olhar único de Moore, com uma pergunta muito simples: como enquadrar com alguma profundidade personagens ridículas e simplistas na complexidade de um mundo real? E que consequências teria a presença de criaturas idealizadas pelo, abundantemente citado, Nietzsche?

Criada em 1954 por Mick Anglo como Marvelman (o nome viria a ser trocado para evitar confusões com a editora Marvel), Miracleman era na verdade uma cópia britânica descarada de Captain Marvel (1939), com poderes dados por uma entidade mística, uma palavra mágica que transformava um alter ego banal num super-herói, e uma “família” de parceiros na luta teatral contra um Mal estereotipado. Mas Captain Marvel cessara publicação em 1953, acusado de copiar Superman. Estas confusões quase que prenunciam o percurso acidentado deste trabalho, e uma das razões por não ser mais divulgado, justificando a segunda parte da afirmação do editor. Na verdade, o autor aborreceu-se tanto com questões de direitos que nesta edição surgem apenas os nomes dos vários desenhadores (destaque para Alan Davis, Garry Leach e John Totleben), sendo o argumentista identificado como “O Escritor Original”. Terão de acreditar que esta é mesmo uma das obras marcantes de Alan Moore, embora existam também fragilidades evidentes.
O melhor deste “novo” “Miracleman” são os murros no estômago, que se sucedem no início da série. A “ressurreição” da personagem “em tempo real” após décadas de esquecimento (o original acabara em 1963) é vista através dos olhares incrédulos, quer do seu alter-ego de meia idade Mike Moran, quer do próprio Miracleman. E não, não são a mesma pessoa, como o nascimento dramático (a vários níveis) de uma criança com superpoderes (Mike é estéril, Miracleman não), irá demonstrar, postulando-se um salto evolutivo quase divino na humanidade. O efeito devastador deste “simples” evento na vida familiar de Moran e da sua esposa (e no mundo), é um dos pontos altos de “Miracleman”; tal como a noção de que o (super)poder (super)corrompe, na magnífica recriação de Kid Miracleman (o “assistente júnior” do Miracleman original), que se transforma na Némesis luciferiana do protagonista. Quanto ao mundo ingénuo das BDs de 1950, Moore transforma-o numa narrativa de enganos e realidade virtual, parte de um plano militar secreto para transformar tecnologia alienígena em supersoldados, sem perder o controlo destas novas armas inteligentes. Citando a Guerra Fria, esta matriz para contextualizar a instrumentalização de super-heróis é hoje banal, e a culpa é de Moore.


Mais para o fim há alguma desagregação narrativa, como se, após ter desconstruído o universo inicial com uma lógica de bola de demolição, Moore hesitasse no caminho a seguir. Se a introdução dos cósmicos “Warpsmiths” parece trocar um ridículo nas obras de super-heróis por outro, é muito interessante ver como se esboçam conceitos que o autor expandiria mais tarde em obras como “Promethea” (1999-2005), “Lost Girls” (2006) ou a sua adaptação de “Swamp Thing” (1984-87, onde a premissa sobre o alter-ego é semelhante). Entre a ficção-científica, o misticismo esotérico, ou até alguma verborreia intelectualizante, o final deste “Miracleman” mostra o óbvio: desconstruir é sempre mais “simples” do que construir. E se o “fim do mundo tal como o conhecemos” prenuncia já o final, mais decisivo na sua negra incerteza, de “Watchmen”, neste estimulante “Miracleman” Alan Moore contenta-se em arranjar um enredo que permita aos deuses caminhar sobre a Terra. Espalhando, como sempre, medo e dúvida com a sua terrível benevolência.

Miracleman. Argumento do “Escritor Original” (Alan Moore), desenhos de vários autores. G. Floy Studio. 384 pp., 25 Euros

SEXO


Usar o sexo enquanto tema nunca é linear. Até porque em banda desenhada há a possibilidade de o desenho poder atrapalhar, deixando poucas alternativas de registo que não o clínico ou o erótico-pornográfico, sobretudo o segundo. É o que tende a suceder com autores que privilegiam um realismo sensual, como os italianos Milo Manara ou Paolo Eleuteri Serpieri, em especial quando os argumentos não controlam bem esse fator, ou parecem meros veículos para o realçar. Um bom exemplo é “Druuna”, série de Serpieri retomada recentemente em Portugal pela Arte de Autor com “Anima”. Aqui o excelente desenho tende a esgotar-se em si mesmo, apesar de o facto de “Anima” ser um livro mudo (e descomplexado na sua simplicidade) lhe dar algum interesse formal. Mas mais raro do que introduzir elementos sensuais/sexuais numa obra, é falar abertamente sobre sexo, em vários dos seus múltiplos aspetos. É o que sucede na série “Criminosos do sexo”, uma bela iniciativa da Devir, com argumento do norte-americano Matt Fraction e desenhos do canadiano Chip Zdarsky.

Fundamental nesta obra é o trabalho de Fraction, extremamente hábil a cobrir diferentes tipos de questões relacionadas com o tema (prazer, aventura, amor, vergonha, ciúme, manipulação, mistério, repressão, culpa, preferências) utilizando uma estratégia que passa por misturar experiências concretas reconhecíveis, com doses de tragédia e humor que não deixam a história derrapar muito por causa do seu ponto de partida. Porque falta dizer que esta é uma série sobre sexo com matriz de super-heróis. Na verdade, ao escrever sobre “Criminosos do sexo” fica-se com a sensação clara que qualquer descrição não lhe vai fazer justiça, e pode afastar alguns leitores. Desde logo a premissa, que tenderá a parecer a de um mau filme erótico. Esta é uma série protagonizada por diferentes tipos de indivíduos, cada um banal à sua maneira, que têm como “superpoder” a capacidade de parar o tempo cada vez que têm um orgasmo. Durante curtos instantes podem deslocar-se numa realidade suspensa (a “calmaria”), mexer em objetos, roubar bancos, interagir com os seus concidadãos que não sabem estar paralisados. A história inicia-se quando os dois protagonistas se encontram, descobrindo uma capacidade partilhada que achavam única, e começam a estimular-se mutuamente para potenciar o seu uso, numa das muitas aproximações que Fraction faz às caraterísticas evolutivas de uma relação. Em paralelo trocam histórias de descoberta sexual desde a infância-adolescência, que não estariam deslocadas numa BD muito séria sobre o modo quase milagroso como a maioria das pessoas parece equilibrada apesar das suas experiências a este nível. Claro que, sendo um trabalho de Fraction (veja-se “Hawkeye”) a profundidade anda sempre de braço dado com o humor desbragado  “non-sense”, e rapidamente os protagonistas se vêm ameaçados por uma espécie de “polícia do orgasmo”, que procura evitar que o seu poder seja abusado, que “calmaria” rime com “anarquia”. Esta mudança constante de registos só é possível graças ao desenho de Chip Zdarsky, porque suficientemente realista e vibrante (particularmente no uso da cor) para gerir as situações humorísticas sem cair na caricatura, e as situações realistas e fantásticas sem deixar cair a credibilidade.
Com tudo para ser uma amálgama confusa de arrogância, superficialidade e, pior que tudo, mau gosto, “Criminosos do sexo” tem um pouco disso tudo, mas não exatamente como seria de esperar. E é uma das obras mais surpreendentes e estimulantes dos últimos tempos.


Criminosos do sexo, volume 1: Um truque estranho. Argumento de Matt Fraction, desenhos de Chip Zdarsky. Devir. 140 pp., 15 Euros.