quinta-feira, 2 de agosto de 2018

APATIA


Adaptar um romance para banda desenhada é sempre uma tarefa ingrata. Mesmo com descrições detalhadas a componente visual é imaginada no original, em BD há um ponto de partida gráfico que define a interpretação, e do qual não se pode fugir. Perdem-se umas dimensões, ganham-se outras. Na sua premiada adaptação de “Afirma Pereira” (2016) o francês Pierre-Henry Gomont faz um trabalho notável na abordagem do romance homónimo (1994) do escritor italiano Antonio Tabucchi (1943-2012). Não é (bem) o mesmo livro, nem poderia ser, mas é uma obra excelente, muito distinta (atrevo-me a dizer: com menos limitações) da adaptação para cinema (de Roberto Faenza em 1996, com Marcello Mastroianni).

A estreita ligação de Tabucchi a Portugal é bem conhecida, e “Afirma Pereira” uma visão lúcida da vida no Estado Novo, em 1938. Fugindo um pouco do registo de interrogatório do original, a BD segue a transformação do protagonista, de reservado cronista de cultura num jornal de Lisboa, a questionador ativo da realidade que o rodeia. Uma realidade feita de opressão, de verdades sonegadas, de pequenos informadores; de apatia medíocre. Mas também das (algo previsíveis) jovens perspetivas de mudança, inflamadas pela Guerra Civil na vizinha Espanha, que, no entanto, parecem oscilar entre o ingénuo e o inconsequente. Até que o equilíbrio é perturbado, alguma ação se torna inevitável, como inevitáveis serão as suas consequências. Atormentado por fantasmas de vidas que não teve, profundamente desiludido por um presente (o corpo, as amizades, a profissão) do qual se aliena refugindo-se em traduções de Balzac ou Daudet, procurando respostas possíveis na religião, literatura, filosofia, política, ou medicina, Pereira vai-se deixando contaminar por outras visões que, no entanto, não só não entende bem, como não sabe como operacionalizar. No fundo, Tabucchi e Gomont discutem o papel da cultura (e dos intelectuais) em tornar possível uma, aparentemente distante, Revolução.
Pierre-Henry Gomont tem um traço seguro, mas de aparência hesitante, marcado por excelentes cores crepusculares que, exaltando a luminosidade de Lisboa, paradoxalmente sublinham, até melhor que o preto e branco, o “cinzentismo” do período; bem como as angústias do protagonista e o seu evoluir enquanto cidadão. De resto, até a escolha de papel utilizado contribui para o excelente trabalho global da G. Floy Studio, dando ao livro uma qualidade de nostalgia mate. E se o autor arranja soluções gráficas engenhosas para os diálogos (monólogos) internos de Pereira, define muito bem as restantes personagens, que devem ser vistas, não como entidades em si mesmas, mas enquanto interpretações do próprio Pereira. Algo que justifica, quando necessário, a caricatura demasiado óbvia, ou mesmo a não-definição (como a que carateriza a polícia política). Em “Afirma Pereira” assume-se que grande parte do poder opressivo resulta de resignação e concordância genéricas que ninguém parece saber muito bem como foram definidas; coisas das quais não parece haver libertação, e que todos sabem que sabem. Tanto do lado dos convictamente a favor, como dos assumidamente contra. Como ainda dos resignados, distraídos ou ignorantes, que, de vez em quando, acordam e podem fazer tombar balanças. É que por vezes a mudança vem de onde menos se espera; basta não ter medo. De falhar, mas, também, de triunfar. Mesmo que nada aconteça senão o exílio, ao menos tentou-se.


Afirma Pereira. Argumento e desenhos de Pierre-Henry Gomont, adaptando o romance homónimo de Antonio Tabucchi. G. Floy Studio. 160 pp., 18 Euros.




sexta-feira, 20 de julho de 2018

ACÁCIO


A banda desenhada portuguesa tem tido poucas figuras de dimensão global. Não que muitos dos nossos excelentes autores não sejam reconhecidos (e editados) internacionalmente, refiro-me aqui ao aportar de uma dimensão adicional clara, que obrigaria a falar deles mesmo que não fossem portugueses. Não sendo totalmente insano fico-me pelo óbvio histórico, constituído por nomes conhecidos também de outras atividades: Rafael Bordallo Pinheiro, Carlos Botelho, Stuart Carvalhais, E. T. Coelho.
Um conjunto ao qual gostaria muito que fosse possível adicionar Fernando Relvas (1954-2017). Quem descobriu as suas páginas (na revista “Tintin”, no semanário “Se7e”) reconheceu de imediato um talento inato no traço, na anatomia, no movimento, no jogo de sombras, na composição gráfica da página, na definição de personagens, na construção de diálogos, no fluir da narrativa. O preto e branco de Relvas tem uma qualidade excecional, e não se diz isso de muitos. Qual é, pois, a questão? Desde logo a continuidade. Publicando regularmente na imprensa, a BD de Relvas ironicamente sofre com o seu talento espontâneo e repentista, e as histórias tendem a perder foco (mesmo considerando a sua vertente nonsense); sobretudo quando lidas de seguida, e não ao ritmo a que foram publicadas. Noutra perspetiva, mesmo no caso dos (mais ou menos) “reformados” da BD, como, por exemplo, António Jorge Gonçalves, Miguel Rocha, João Paulo Cotrim ou José Carlos Fernandes há bibliografia que pode ser mostrada a novos leitores, e que facilmente justificaria a sua posição enquanto autores de relevo, não só em Portugal. No caso de Relvas é, sejamos justos, mais difícil. A exceção é a aventura urbana “L123 (seguido de Cevadilha Speed)”, original de 1981, coligido em 1998, e um dos melhores livros da BD portuguesa. 

Daí a importância de edições cuidadas como “O espião Acácio”, que reúne as histórias curtas humorísticas publicadas na revista “Tintin” entre 1978 e 1980. Passada numa Primeira Guerra Mundial apócrifa, as aventuras do protagonista homónimo são, no fundo, um comentário sobre a essência, não do português, mas do “tuga”. Nas diversas peripécias inverosímeis a que o autor o sujeita Acácio de Mello passa incólume enquanto camaleão oportunista adaptável a diferentes realidades, que espia para todos, e que só se safa porque o mundo que o rodeia ainda é menos inteligente do que ele. Para além do virtuosismo gráfico (e de elementos que se calhar hoje já não poderiam ser publicados do mesmo modo), é delicioso ver as mais diversas citações, de tudo. É certo que “Acácio” prefigura também aquilo que iria acontecer noutros trabalhos, com a oscilação constante da história, que inclui a intromissão de elementos anacrónicos (como a ficção científica), embora aqui o nonsense assumido ancore a série. Numa sequência muito conseguida Relvas farta-se da personagem e resolve acabar com ela, sendo forçado a voltar atrás num momento de meta-narrativa em que o autor é confrontado por um editor anónimo. Algo que, se calhar, deveria ter acontecido mais vezes.

Não é possível hoje puxar as orelhas a Relvas, como não o foi no passado. Mas esta é uma edição essencial para se entender o seu percurso, e alvíssaras são devidas à Turbina/Mundo Fantasma, e a Júlio (M)oreira e Margarida Mesquita, por um serviço que transcende memórias pessoais. Já agora: alguém que edite a página de Fernando Relvas na Wikipedia. Merece mais.

O espião Acácio. Argumento e desenhos de Fernando Relvas. Turbina/Mundo Fantasma. 120 pp., 22 Euros.

SÚMULAS


Utilizar a banda desenhada para comunicar de maneira eficiente informação complexa a diferentes tipos de públicos é algo já com grande aceitação, incluindo algumas iniciativas nacionais. Se a Medicina Gráfica utiliza experiências pessoais para humanizar e contextualizar reflexões sobre temas relacionados com a Saúde, incluindo componentes não necessariamente científicos; na Divulgação Científica a ideia é utilizar a BD para descodificar conhecimentos de modo rigoroso, mas acessível. Contando com propostas muito interessantes no seu catálogo (“Logicomix”, “Cosmicomix”, livros de Larry Gonick), a Gradiva tem dado continuidade ao seu excelente trabalho nesta área.

O título “Hubert Reeves explica a Biodiversidade” é revelador da autoridade (sobretudo no meio francófono) do astrofísico e divulgador canadiano Hubert Reeves (conhecido por obras como “Um pouco mais de azul”), que se tem preocupado mais recentemente com a (perda de) biodiversidade. Utilizando uma visita de estudo pela região francesa da Occitânia, Reeves reflete sobre a natureza da biodiversidade, alertando para os perigos que a afetam utilizando de modo eficaz ligações ao dia a dia. O que não significa que todos se revejam nas suas interpretações. Dos combustíveis fósseis às espécies invasoras Reeves tem o condão de evitar associações maniqueístas ou definitivas, focando-se, ao invés, numa abordagem de diálogo permanente e adaptação. Registe-se que a eficácia da mensagem muito deve ao excelente desenho do francês Daniel Casanave, cujo traço enganadoramente simples, servido por cores luminosas, é ideal para o envolvimento do leitor, e para a clareza que a obra pede.



A este livro em formato de álbum franco-belga acrescem dois pequenos volumes traduzidos da “Petite Bédéthéque des Savoirs” (Éditions du Lombard). “O Universo” volta a juntar Reeves e Casanave, e a verdadeira chave deste livrinho está no subtítulo: “Criatividade cósmica e artística”. Reeves revela mais uma vez a sua vertente holística, discutindo as propriedades que governam, não só o cosmos e a vida, mas também a criação artística e cultural. Obrigando a refletir de forma estimulante, esta abordagem será menos consensual do que as mensagens sobre biodiversidade, até pela falta de bases que apoiem alguns aspetos, roçando por vezes um certo misticismo determinista. Mas o desenho é notável, “aguentando” muito bem o pequeno formato. 

Já “Os direitos do Homem” não é divulgação científica, propondo-se desmontar a elaboração da “Declaração Universal dos Direitos do Homem”, adotada pelas Nações Unidas em 1948; bem como os motivos que conduziram às escolhas dos seus redatores para que a mesma pudesse ser, na medida do possível, “universal”, e aprovada pela maioria dos 58 membros da ONU na altura (oito abstenções, incluindo os países europeus do ex-Bloco Soviético, Arábia Saudita, e África do Sul). Numa solução muito interessante, o argumentista belga François De Smet (também filósofo e jornalista) faz da própria “Declaração” narradora, assumindo-se como personagem na sua construção, desde os (tristes) acontecimentos históricos subjacentes (e subsequentes), até à motivação dos diferentes redatores, e à intersecção entre visão e compromisso que marcam este tipo de textos. Quanto ao desenho, o também belga Thierry Bouüaert tem um traço apropriadamente realista, e, embora o tamanho não seja aqui aliado do grafismo, as suas composições transmitem a urgência histórica, ao mesmo tempo que as cores escuras vincam o indisfarçável pessimismo de De Smet; no fundo, a antítese da esperança cautelosa de Hubert Reeves, partindo ambos do mesmo tipo de abordagem global. Leituras complexas e estimulantes podem sem dúvida vir em embalagens pequenas.


Hubert Reeves explica a Biodiversidade. Argumento de Hubert Reeves e Nelly Boutinot; desenhos de Daniel Casanave. Gradiva. 64 pp., 11,70 Euros.
O Universo: Criatividade cósmica e artística. Argumento de Hubert Reeves; desenhos de Daniel Casanave. Gradiva. 44 pp., 9,90 Euros.
Os direitos do homem: Uma ideologia moderna. Argumento de François De Smet; desenhos de Thierry Bouüaert. Gradiva. 84 pp., 9,90 Euros.

sábado, 23 de junho de 2018

DIÁLOGOS



Falar de banda desenhada e ilustração é (também) discutir um mundo onde palavras e (sobretudo) imagens se cruzam das mais diversas, e inesperadas, maneiras. Sugerindo, mais do que contando, mostrando portas, mais do que as abrindo. Até aquelas alturas em que nos perguntamos quando acabou aquilo a que estávamos habituados, e nasceu outra coisa qualquer.


Em “Retratos” André Ruivo propõe, precisamente, onze retratos em grande formato desenhados sem linha a preto, utilizando blocos de cores fortes e texturas a evocar lápis de cera ou giz. Mas quem são estas pessoas? Quanto mais se contemplam, mais parecem vagamente familiares, mais as cores vibrantes e pouco naturais assumem potenciais significados, mais nos preocupamos com as personalidades e possíveis vidas que estarão por detrás da representação, com as ligações entre elas. E traçamos outros retratos, em paralelo aos do autor.

Diametricamente oposto do ponto de vista gráfico é “O livro das imagens” de Sei Miguel, mais conhecido enquanto compositor e músico. O autor revela aqui um interessante traço fino a negro, cuja fragilidade surreal anima composições realizadas entre 2012 e 2015, potenciadas pelas várias possibilidades de “leitura” de cada desenho. O livro desde logo assume alguma narratividade em potência, um diálogo entre o nome de cada ilustração, os elementos gráficos, e o modo como os seus diferentes níveis se organizam no espaço. Por ali pululam sugestões de conflitos e hesitações, elementos de fábulas, monstros, lendas. Também aqui o prolongamento do olhar cria familiaridade, e começamos a encadear histórias retiradas de cada imagem, que nunca sabemos bem se eram aquelas que o autor tinha em mente, mas que (nos) fazem sentido.

Por último, o monumental “Desenhos efémeros” de António Jorge Gonçalves é uma obra estimulante, que dá testemunho da consolidação impossível de (parte de) uma notável obra, que há muito deixou as fronteiras da banda desenhada. Porquê impossível? Pela natureza dos trabalhos revisitados aqui, um pouco a BD, mas mais cenografias para teatro, os desenhos rápidos a passageiros no metro; e sobretudo as diversas performances de desenho ao vivo do autor, dialogando com música, escrita, bailado, representação. É esta a evolução da obra de António Jorge Gonçalves que o livro interroga, focando todo o trabalho (técnico, concetual) necessário para explorar um mundo no qual desenhos projetados sobre telas ou edifícios em tempo real, à medida que vão sendo produzidos, ganham vida própria num contexto específico, não só de espaço, mas também de tempo, que a fotografia (ou mesmo o vídeo) dificilmente apreenderiam. O livro compensa a tangente ao impossível com reflexões sobre esse diálogo permanente, quer do próprio autor, quer mediante textos de acompanhantes-cúmplices de percurso. Particularmente interessante é o modo como o autor enquadra esta sua evolução, como que utilizando a performance para “obrigar” um planeamento mais cerebral a dar lugar à rapidez instintiva no depurar de traço e composição; para mais tarde se afastar e analisar (de novo cerebralmente) o que aconteceu. E até que ponto se pode falar de diálogo entre formas de expressão, e não apenas encontros fortuitos? Como integrar os diferentes tempos de produção onde desenhar, por exemplo, parece andar sempre atrás do instantâneo da música? Quem potencia o quê, quando, como? E ainda: o que fazer a seguir?

Numa altura em que são contínuas as edições de diferentes tipos de banda desenhada (e ainda bem), é bom experimentar obras que nos desafiam a ir além das diversas caixas em que nos fomos inserindo; e a pensar se temos mesmo a certeza daquilo que temos a certeza.


Desenhos efémeros. Desenhos de António Jorge Gonçalves. Orpheu Negro, 336 pp. 28 Euros.
Retratos. Desenhos de André Ruivo. Mmmnnnrrrg/The Inspector Cheese Adventures. 11 pp., 10 Euros.
O livro das imagens, 2012-2013-2014-2015. Desenhos de Sei Miguel. O Homem do Saco/Marmita de Gigante. 84 pp. 13,50 Euros.

MEDIÁTICO


A editora GFloy Studio tem feito um bom trabalho no que diz respeito ao volume e relação qualidade/preço das edições. Mas a sua principal virtude é a escolha de séries que, bebendo a essência de super-heróis/ficção-científica/fantasia/horror/policial, transformam-na em algo mais interessante do que as referências originais. Com o mérito adicional de manter uma regularidade de lançamentos. Neste caso temos uma continuação, três estreias.
Já muito discutida, a ópera espacial “Saga” de Brian K. Vaughn e Fiona Staples, é um excelente exemplo de como ingredientes habituais de ficção-científica podem ser transcendidos, aplicando uma abordagem realista às relações “humanas” (casais, pais e filhos, amigos/inimigos, crenças, posições políticas), que vão evoluindo, crescendo e definhando ao ritmo da narrativa. Cujo contexto é estranho apenas até nos apercebermos das inspirações que estão na sua génese. Se Romeu e Julieta tivessem sobrevivido, ter-se-iam divorciado? É este o tipo de provocação comum em “Saga”.

Também de ficção-científica espacial não é ainda possível definir totalmente “Descender”. A não ser para registar uma interessante temática de Inteligência Artificial, e a definição intimista de contexto e personagens por parte do argumentista Jeff Lemire (que trás sempre algo de surpreendente), mas sobretudo o desenho quase diáfano de Dustin Nguyen, que de início parece deslocado, até se perceber que dá o tom exato à vertente de descoberta pessoal da obra. Já “Imperatriz” de Mark Millar e Stuart Immonen parece, neste primeiro volume, pouco convincente, num registo comum a “Saga”, “Descender” (e muitas outras), que se resume a isto: “tudo o que achávamos ser verdade é mentira, e ninguém é o que aparenta”. Qual é o problema? É que esta receita funciona tanto melhor quanto menos se der por ela. Neste caso, entre perseguições e conflitos previsíveis e, sobretudo, com personagens pouco aprofundadas, demasiado óbvias ou demasiado misteriosas, a ligação terá de ficar para outro volume.

De resto não é infrequente isso acontecer com Mark Millar (e o seu Millarverse), acusado de desenvolver conceitos de maneira apressada em BD, com o objetivo de os vender mais facilmente ao cinema; como sucedeu, por exemplo, com “Kingsman”, “Kick-Ass”, ou “Wanted”. É possível, mas relevante é saber se as obras valem por si mesmas. E “O legado de Júpiter“ é, a par de “Saga”, a mais recomendável destas propostas da GFloy. 

É certo que o estratagema narrativo de imaginar de modo (mais ou menos) realista os super-heróis enquanto cidadãos, e trabalhar a sua potencial influência na sociedade (de bombeiros a ditadores) não é nada novo, considerando “Watchmen” e “Miracleman” (com argumentos de Alan Moore), ou “Marvels” e “Astro City” (escritas por Kurt Busiek, a segunda é uma clara falha editorial entre nós). Para além da elegância do traço de Frank Quitely, o que “O legado de Júpiter” acrescenta é uma abordagem aos super-heróis que joga de maneira muito inteligente com aquilo que teria de ser o mediatismo de tais personagens num mundo “real”, da modéstia recatada de alguns, ao comportamento tipo “reality show” e aspirações políticas de outros. 


No entanto, apesar da inspiração ser óbvia, haver pontos de contacto com “Saga”/Moore/Busiek (mais todos os “X-Men”), e faltar concretização na componente político-económica, “O legado de Júpiter” tem personagens credíveis, que, por acaso, também têm superpoderes. Quando se contam histórias com pessoas inacreditáveis a primeira coisa a fazer trazê-las para o mundo, dar-lhes uma dimensão humana. Para que seja plausível o momento inevitável em que os seus poderes estragam tudo.


O legado de Júpiter 1: Luta de Poderes. Argumento de Mark Millar, desenhos de Frank Quitely. GFloy Studio. 136 pp., 14 Euros.
Imperatriz 1. Argumento de Mark Millar, desenhos de Stuart Immonen. GFloy Studio. 192 pp., 16 Euros.
Saga 7. Argumento de Brian K. Vaughn, desenhos de Fiona Staples. GFloy Studio. 152 pp., 12 Euros.
Descender 1: Estrelas de lata. Argumento de Jeff Lemire, desenhos de Dustin Nguyen. GFloy Studio. 152 pp., 14 Euros.

AUTÓPSIA

Há obras absolutamente essenciais na sua monumentalidade (qualquer que seja o formato), que, para além do elogio que resulta da edição, merecem algo muito simples: serem lidas. Chamem-se “Bíblia”, “Dom Quixote”, “Ulisses”. Ou “From Hell”/“Do inferno” de Alan Moore e Eddie Campbell, editada em finais de 2017 pela Devir numa iniciativa que merce todo o aplauso. Apesar de existirem questões não triviais relacionadas com a tradução/texto, estas têm de se relativizar numa obra que explora, não apenas os assassínios atribuídos a Jack o Estripador em 1888, mas toda a envolvência sociocultural, no fundo fazendo uma autópsia da época vitoriana. Que, e isto é talvez o mais relevante, na sua essência se estende pelas Guerras Mundiais até aos nossos dias, com outras matrizes, mas mantendo as mesmas estruturas de poder, seja político, económico, mágico, religioso ou qualquer outro. Mais ou menos autoritário, mais ou menos democrático. 

Publicada em fascículos entre 1989 e 1998, e mais tarde reunida em livro, esta é uma obra-limite de vários pontos de vista. Para além das mais de 500 páginas de BD, há copiosas notas, nas quais Alan Moore explica as fontes consultadas e o raciocínio que esteve na base de cada representação ou diálogo (mesmo que estes sejam todos inventados). Não é algo menor: neste caso as notas são parte integrante da obra, e devem ser lidas em paralelo, cena a cena. Noutra perspetiva: dadas as ligações (surpreendentes? estapafúrdias?) sugeridas, o modo como forem (ou não) lidas transforma “Do inferno”. Há também elementos de meta-narrativa onde Moore discorre sobre o grau de verosimilhança de cada opção, bem como potenciais alternativas, e refere mesmo pontos de desacordo com o desenhador Eddie Campbell. O qual, por sua vez, utiliza de forma brilhante o seu estilo numa sucessão de linhas cruzadas a preto e branco, das quais tanto pode emergir uma névoa londrina de enganos, como detalhes cristalinos, desviando-se por vezes pela aguada em representações fora do bairro infecto de Whitechapel. A planificação-base inclui três linhas de três vinhetas cada por página, uma simplicidade enganadora que pode ser utilizada para vincar uma ação ou criar paralelismos entre eventos. Mas sobretudo induz no leitor uma regularidade que alerta quando a regra não é mantida, como a apresentação da Rainha Vitória, os cenários dos crimes, ou as igrejas eivadas de simbolismo do arquiteto barroco Nicholas Hawksmoor. Neste último caso é evidente a dissecção metafórica da Londres-protagonista (tão detalhada quanto a de Mary Kelly realizada pelo Estripador), apresentada através de um discurso que, cruzando simbolismos de todas as correntes (pagãos, gnósticos, maçónicos, cristãos), não deixa de ser por vezes pedante (escudado na natureza do protagonista humano), criando o contraste entre o erudito e o ignaro, o conhecimento e a ignorância, a beleza e a brutidade; que são a base de todas as sociedades.

No meio disto tudo talvez o menos relevante seja a teoria defendida em “Do inferno” quanto à identidade do Estripador. Sendo esta uma obra de ficção tem, ao contrário de um documentário, de propor algo concreto, e a escolha (baseada sobretudo numa fonte) tem implicações na estrutura. O presumível culpado, bem como a evolução pessoal e social que o terá levado a encarnar “Jack”, é apresentado logo no início, e o encadear de eventos gerido de forma lógica; incluindo uma vasta conspiração (cuja credibilidade será avaliada por cada leitor) criada para ocultar os crimes. Mas os próprios autores estão cientes das limitações especulativas do livro, semelhantes a todos os outros sobre a temática. Paira no fim uma mensagem fundamental: na sua concretização, investigação e possíveis ocultações, este foi um crime coletivo, cometido sobre as mais vulneráveis. Um tipo de crime que tende a ficar sem castigo.


Do inferno. Argumento de Alan Moore, desenhos de Eddie Campbell. Devir. 576 pp., 40 Euros.

domingo, 15 de abril de 2018

SACIAR


Pensadas inicialmente para a revista “Granta” (só uma foi publicada na altura) as duas histórias que compõem “Comer/Beber” (Tinta da China) constituem a mais recente, e muito badalada, obra da dupla Filipe Melo e Juan Cavia. “Sleepwalk” (comer) tem como fulcro uma tarte de maçã (a receita está no fim do livro), e passa-se entre o Arizona e o Texas, em 1984. “Majowski” (beber) gira em torno de uma garrafa de champanhe, e tem lugar sobretudo num restaurante em Berlim, entre 1935 e 1943. 

Se o ritmo de “Sleepwalk” faz jus ao título, a história surpreende por aquilo que não diz, um relato de dissolução inexorável feita de solidões cruzadas, que o leitor terá de reconstruir. Como um conto escrito por Sam Shepard, inspirado por imagens de Edward Hopper iluminadas pelas cores do deserto. Até pelo fôlego temporal, “Majowski” é mais complexa, talvez também porque baseada em eventos reais (há um pequeno dossiê no final), contando com colaborações no argumento e arte, e com cores apropriadamente mais carregadas. Aqui o principal mérito é o modo como, em curtos episódios numa história já de si curta, texto e desenho conseguem definir de forma credível a evolução necessariamente complexa de personagens e do próprio regime nazi ao longo de vários períodos (da glória de Marlene Dietrich, aos bombardeamentos dos aliados). Fugido da Polónia em 1917, o protagonista vê-se enredado num ambiente que o projeta, ao mesmo tempo que o oprime, e essa contradição é muito bem trabalhada. Uma contradição que espelha, num certo sentido, a posição do protagonista de “Sleepwalk”, simultaneamente amigo e carrasco.

Distante das citações pop do cinema fantástico na série “Dog Mendonça e Pizzaboy”, ou da abordagem alegórica mais “pesada” da Guerra Colonial de “Os Vampiros”, no díptico “Comer/Beber” parece haver alguma preocupação em manter referências universalizantes reconhecíveis que lhe concedam desde logo outra dimensão de leitura; sejam a Berlim hitleriana, ou os grandes espaços do sudoeste dos EUA. Mas estas são claramente histórias mais intimistas, que respiram a evolução de uma época (“Majowski”) ou o silêncio (“Sleepwalk”). Onde o saciar de duas necessidades básicas surge enquanto redenção que transcende o momento, graças a uma garrafa que sobrevive anos de chumbo, ou a uma receita que ressuscita uma última vez. E nas quais, de forma reveladora, não há sinal dos elementos sobrenaturais ou fantásticos que caraterizaram as obras anteriores.
Perguntar-se-á: mas, dada a sua aparente simplicidade (mormente quando comparada com “Os Vampiros”), merece “Comer/Beber” todo o destaque mediático que teve? Sem dúvida, não só pelo modo inteligente como estão construídas as duas histórias, mas por poderem representar um primeiro passo muito interessante rumo a outro tipo de narrativas na evolução da dupla Melo e Cavia. Não é que a pergunta não seja válida, está é mal formulada. O problema não é o espaço que Filipe Melo soube conquistar, antes os (misteriosos) critérios que parecem limitar destaques similares para as muitas notáveis obras (incluindo de autores portugueses) que as nossas excelentes editoras de banda desenhada têm vindo a publicar.


Comer/Beber. Argumento de Filipe Melo (com Nádia Schilling), arte de Juan Cavia (com Juan Cruz Rodriguez e Sandro Pacucci). Tinta da China. 64 pp., 12 Euros.