terça-feira, 7 de março de 2017

TEMPESTADES


Surpreender com familiaridade pode parecer um paradoxo, mas tem feito parte da essência do trabalho em banda desenhada de Diniz Conefrey. De Herberto Hélder (“Arquipélagos”/“Os labirintos da água”), ao México pré-colombiano (“O livro dos dias”), à BD abstrata (“Meteorologias”), a busca de formas e ritmos é contínua, criando ambientes hipnóticos compostos de cores, traços, texturas, palavras. O seu mais recente livro “Judea” (Pianola) adapta a novela “Youth”/“Mocidade”, de Joseph Conrad (1898), narrada pelo alter-ego putativo do escritor Charles Marlow, o mesmo de “Lord Jim” ou “Heart of Darkness”. E, se à primeira vista o livro surpreende pela aparente demarcação de um trilho criativo recente, a distância percorrida é curta; com “Judea” o autor ensaia alternativas que a princípio parecem mistas e de compromisso, mas que coalescem de modo inesperado numa nova síntese.

Tal como noutras obras de Conrad (e de Conefrey) “Judea” é um relato iniciático de viagem, apresentado enquanto memória de um Navio (ou de um marinheiro?) que perdeu as graças do mar (ou para quem o mar perdeu a graça). A história-base é falsamente simples: o velho veleiro enferrujado “Judea”, uma rota acidentada de Inglaterra ao Índico, uma carga de carvão no porão. Como se não bastassem os habituais riscos de uma longa aventura marítima (vento, calmaria, o mar revolto), esta viagem em particular parece amaldiçoada desde início, e, num culminar de adversidades, a carga entra em combustão espontânea. Sem que nenhuma estratégia consiga apagar o fogo, apesar de todos os esforços obstinados (quase românticos) para salvar um navio que se tenta transcender, a viagem torna-se um longo arrastar rumo a um fim inexorável, com a tripulação a tentar agarrar-se à vida pairando sobre uma bomba-relógio que a pode surpreender a qualquer momento. Se algumas personagens humanas adquirem voz própria, o principal protagonista é o próprio malogrado navio, cuja essência para os marinheiros oscila entre a única salvaguarda da fúria do mar, e o risco de destruição iminente que trás no seu âmago; com o céu, o oceano, e mesmo a terra firme e outros navios a evitarem conceder um porto seguro. É esta dualidade segurança/morte (e concreto/abstrato) que Diniz Conefrey trabalha, utilizando de modo soberbo o preto e branco, onde o desenho consegue a proeza de evocar cores (o vermelho do fogo, o azul do mar), que só as palavras do argumento têm o direito de expressar.

Considerando a evolução do olhar criativo é iluminador ver como o interesse na BD abstrata, visível no anterior “Meteorologias” (Quarto de Jade), é integrado em “Judea”, numa mescla de convoluções de penhascos, vagas, nuvens e fumo, que chegam a ocupar páginas inteiras com uma ferocidade insuspeita, e um estranho cunho de intemporalidade que toca todos os elementos. As diversas tempestades, sejam naturais (o mar, o vento, a costa), sejam artificiais (o fogo), sejam os humores da tripulação, são integradas numa só, com o contraste entre o traço preciso de personagens e motivos náuticos, e a força telúrica dos elementos mais abstratos a evocar um poder tanto mais violento quanto o texto o parece negar. Se a opção narrativa reconhecível é profundamente enriquecida pela abstração, esta, por sua vez, e usando o pretexto de ser mar/céu/fogo/fumo, poderia parecer oca sem a âncora que as madeiras podres e a angústia dos marinheiros lhe concedem. Desse ponto de vista “Judea” demonstra de que modo uma estrutura narrativa “clássica” pode ser útil enquanto uma espécie de base criativa reconhecível que “fixa” a leitura, permitindo, em simultâneo, a introdução de outro tipo de elementos disruptivos. A familiaridade é uma excelente ferramenta para desarmar espectativas, e permitir a construção de algo novo com o leitor, sem que ele disso se aperceba.

Judea. Argumento e desenhos de Diniz Conefrey (adaptando “Youth”/“Mocidade”  de Joseph Conrad). Pianola Editores. 84 pp., 16 Euros.




domingo, 5 de março de 2017

JUSTIFICAÇÕES


Quando tudo parece correr bem é difícil questionar o estado das coisas. Em contraposição, e considerando o mundo nos últimos anos, não deixa de ser natural que se privilegie hoje a reflexão sobre instituições e ideias que deveriam funcionar muito bem no papel, mas que já não parecem capazes de responder a novos desafios. Ou deveremos mesmo duvidar do papel em que foram inicialmente escritas?

O muito interessante “Democracia: Uma história sobre a coragem de mudar o mundo” (Bertrand) procura contextualizar o estabelecimento do modelo democrático inicial em Atenas, não só em termos das suas limitações, mas do modo como se relaciona com uma visão contemporânea das relações de poder e de quem o exerce, dois mil e quinhentos anos depois.  A aposta editorial está certamente ligada ao sucesso do livro anterior da mesma equipa gráfica, “Logicomix”, sobre a obra científica e filosófica de Bertrand Russell, mas se nesse livro o papel dos argumentistas Apostolos Dioxiadis e Christos Papadimitriou era decisivo, “Democracia” é um projeto pessoal do desenhador grego Alecos Papadatos, concebido com o argumentista Abraham Kawa. A história foca-se nas tribulações de um jovem ateniense, que conta as suas aventuras aos companheiros de armas antes da famosa batalha contra os persas em Maratona, com histórias dentro de histórias em que deuses, lenda e realidade se confundem. Graças a esses mecanismos narrativos percorre-se a história, política e governação da cidade de Atenas, quem exerce o poder, de que modo o exerce, e que outras alternativas se poderiam propor. Mas alternativas para quê, exatamente? De modo a garantir maior representatividade? Dar voz a quem não a tem? Apenas para assegurar pragmaticamente um governo onde as pessoas (as que tinham esse direito em Atenas, sublinhe-se) se sentissem ouvidas, mesmo que na verdade apenas fossem habilmente instrumentalizadas?
A ambição de tentar referir demasiados assuntos (por vezes com pormenores que levam muito tempo a enquadrar), fazem com que o resultado possa ser algo pesado, com um equilíbrio tenso entre História e estória. Ou seja: sente-se alguma dificuldade em criar situações e personagens que “cumpram” as funções expositivas que os autores delinearam sem isso parecer forçado. Mas é louvável o modo como se procuram evitar finais felizes artificiais e estereótipos, embora nem sempre seja possível, mormente do ponto de vista gráfico. Sobretudo é inevitável ler “Democracia” à luz contemporânea, e essa era uma intenção clara dos autores. As manobras políticas descritas ao longo do livro podem girar em torno das alterações para o primeiro modelo dito democrático em Atenas, mas é evidente que a democracia e o carisma heroico de uns podem ser o elitismo e a tirania de outros, e os fins acabam quase sempre por justificar os meios. 

Na verdade, as justificações de deuses e humanos sucedem-se em “Democracia”, mas não deixam de vincar que o poder é, simplesmente, aquilo que sempre foi: poder. Gerido com força, dinheiro, retórica. Nesse sentido é interessante ver os espartanos enquanto força militar ocupante, a arte clássica grega (vasos, estátuas, templos) enquanto veículo de propaganda; e sobretudo o Oráculo de Delfos enquanto Agência de Rating, ou uma qualquer entidade reguladora, tanto mais perigosa quanto é descaradamente manipulável sem o parecer. Também, como sempre, a manipulação tem intenções, e não é certo que as “boas” sejam necessariamente melhores do que as “más”. Embora o livro termine com uma mensagem de confiança, o caminho narrativo trilhado vai um pouco ao arrepio do subtítulo da obra, no sentido em que o mundo não pareceu mudar assim tanto, a vigilância tem de ser permanente, e todos os erros e atropelos podem ser justificados com boa fé, a pior fé de todas. Limitarmo-nos a repetir Churchill e defender que a Democracia é o pior sistema de governo à exceção de todos os outros é, hoje, uma escapatória curta.


Democracia: Uma história sobre a coragem de mudar o mundo. Conceito de Alecos Papadatos, história de Alecos Papadatos e Abraham Kawa, argumento de Abraham Kawa, desenhos de Alecos Papadatos com cores de Annie di Donna. Bertrand Editora. 240 pp., 19 Euros.



domingo, 19 de fevereiro de 2017

FAMÍLIA


Como dizia Tolstoi, as famílias felizes parecem-se todas; as famílias infelizes são infelizes cada uma à sua maneira; e, acrescenta-se, dão mais pano (ficcional) para mangas. Várias obras interessantes em banda desenhada abordam relações familiares e suas consequências, sendo particularmente notável “Saga”, escrita por Brian K., Vaughan com desenho elegante de Fiona Staples (G. Floy Studio). Nesta série a miscigenação, o racismo, ou as tensões nacionalistas, relacionais e geracionais, bem como a aprendizagem mútua constante que decorre disto tudo, são discutidos de uma forma pungente e realista; embora para tal se utilize um contexto alegórico de guerra e “space opera”, por detrás do qual se escondem questões reconhecíveis na sua simplicidade profunda.

Infelizmente o mundo real não permite escapismos, embora algumas das suas propriedades não fossem consideradas credíveis num registo de ficção-científica. No segundo tomo da autobiografia “O árabe do futuro” (Teorema) Riad Sattouf continua o relato de uma infância no Médio Oriente, focando a escolaridade na Síria de Hafez al-Assad nos anos 1980, e o modo como a sua família (não) se adapta a um contexto de penúria e controlo, onde a doutrina oficial e a hierarquia familiar são absolutas, e no qual a sua mãe (francesa), e sobretudo o seu pai (educado em França) têm dificuldades em assumir uma posição confortável. Na verdade, se a versão ingénua do Riad Sattouf-criança é importante para marcar a realidade (a desorganização, o racionamento, o ódio aos judeus, mas também a beleza do país e a “normalidade” das pessoas), fulcral mesmo é a posição do seu pai, incapaz de um olhar crítico que lhe permita resolver as incongruências entre a Síria que crê existir, e a que o seu filho vê. No fundo, Abdul-Razak al-Sattouf representa o dilema de todos os conflitos, na medida em que nem quem conhece os dois lados parece habilitado a intervir de forma útil. Embora mantenha todo o interesse, a verdade é que este segundo volume repete temas, algo que sublinha o problema maior do desenho: o traço caricatural, potenciado pela visão infantil, torna difícil não encarar a obra (também) enquanto caricatura.

Por fim, o imenso sul dos Estados Unidos de onde é natural o argumentista Jason Aaron, é retratado na série “Southern Bastards” e em “Má Raça” (G. Floy Studio), como um agregar de espaços minúsculos (físicos e mentais), onde a religião, o futebol americano, as armas e uma autoridade paternalista (entendidos enquanto diferentes formas de poder) são fatores identitários. Dotadas de desenhos apropriadamente diretos e “sujos”, nestas obras a noção de “família” tem mais a ver com um comungar de espaço e filosofia, e menos com relações de sangue. Pais e filhos (quase sempre no masculino) repisam dinâmicas violentas canónicas, e o talento de Aaron está no modo como cria interesse gerindo o óbvio. Se “Má Raça” é muito previsível, “Southern Bastards” tem o grande mérito de contextualizar de maneira credível o modo como certas tendências se reproduzem, humanizando no segundo volume o que no primeiro parecia arbitrário e abjeto.

Tal como Riad Sattouf, Jason Aaron é uma espécie de “arrependido” convicto, ambos olhando de fora para mundos que renegaram (por excelentes motivos). E estes olhares não devem servir, nem para ridicularizar com base na incompreensão, nem para aceitar acriticamente com base na tolerância. Mas para algo que ainda não fomos capazes de articular; porque a complexidade, por definição, não é simples. Se o mundo onde viveu Sattouf está subjacente a crises na Europa, o mundo onde nascem as histórias de Aaron facilitou a eleição de Donald Trump. Mundos onde os conflitos elaborados de “Saga” parecem quase utópicos. Brian K. Vaughan será talvez um otimista, mas, diriam Sattouf e Aaron, não viveu o que eles viveram. Talvez só criando (semi)ficções poderemos abordar realisticamente os verdadeiros problemas.


 
Saga 4 e 5. Argumento de Brian K. Vaughan, desenhos de Fiona Staples. G. Floy Studio. 150 pp., 11 Euros.
O árabe do futuro 2 (Ser jovem no Médio Oriente, 1984-1985). Argumento e desenhos de Riad Sattouf. Teorema. 160 pp., 19,90 Euros.
Má Raça (Men of Wrath). Argumento de Jason Aaron, desenhos de Ron Garney. G. Floy Studio. 136 pp., 11 Euros.
Southern Bastards vol 1 e 2. Argumento de Jason Aaron, desenhos de Jason LaTour. G. Floy Studio. 120 pp., 10 Euros.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

DIVINDADE


Uma das obras mais importantes dos últimos tempos é a monumental edição de “Miracleman” (G.Floy Studio), que inclui o material escrito para a revitalização da personagem por Alan Moore (não bem uma edição integral). O editor José de Freitas afirma que esta é a melhor BD de super-heróis que os fãs nunca leram. Porquê? No que diz respeito à primeira parte da afirmação, porque 1982 marca o início do olhar único de Moore, com uma pergunta muito simples: como enquadrar com alguma profundidade personagens ridículas e simplistas na complexidade de um mundo real? E que consequências teria a presença de criaturas idealizadas pelo, abundantemente citado, Nietzsche?

Criada em 1954 por Mick Anglo como Marvelman (o nome viria a ser trocado para evitar confusões com a editora Marvel), Miracleman era na verdade uma cópia britânica descarada de Captain Marvel (1939), com poderes dados por uma entidade mística, uma palavra mágica que transformava um alter ego banal num super-herói, e uma “família” de parceiros na luta teatral contra um Mal estereotipado. Mas Captain Marvel cessara publicação em 1953, acusado de copiar Superman. Estas confusões quase que prenunciam o percurso acidentado deste trabalho, e uma das razões por não ser mais divulgado, justificando a segunda parte da afirmação do editor. Na verdade, o autor aborreceu-se tanto com questões de direitos que nesta edição surgem apenas os nomes dos vários desenhadores (destaque para Alan Davis, Garry Leach e John Totleben), sendo o argumentista identificado como “O Escritor Original”. Terão de acreditar que esta é mesmo uma das obras marcantes de Alan Moore, embora existam também fragilidades evidentes.
O melhor deste “novo” “Miracleman” são os murros no estômago, que se sucedem no início da série. A “ressurreição” da personagem “em tempo real” após décadas de esquecimento (o original acabara em 1963) é vista através dos olhares incrédulos, quer do seu alter-ego de meia idade Mike Moran, quer do próprio Miracleman. E não, não são a mesma pessoa, como o nascimento dramático (a vários níveis) de uma criança com superpoderes (Mike é estéril, Miracleman não), irá demonstrar, postulando-se um salto evolutivo quase divino na humanidade. O efeito devastador deste “simples” evento na vida familiar de Moran e da sua esposa (e no mundo), é um dos pontos altos de “Miracleman”; tal como a noção de que o (super)poder (super)corrompe, na magnífica recriação de Kid Miracleman (o “assistente júnior” do Miracleman original), que se transforma na Némesis luciferiana do protagonista. Quanto ao mundo ingénuo das BDs de 1950, Moore transforma-o numa narrativa de enganos e realidade virtual, parte de um plano militar secreto para transformar tecnologia alienígena em supersoldados, sem perder o controlo destas novas armas inteligentes. Citando a Guerra Fria, esta matriz para contextualizar a instrumentalização de super-heróis é hoje banal, e a culpa é de Moore.


Mais para o fim há alguma desagregação narrativa, como se, após ter desconstruído o universo inicial com uma lógica de bola de demolição, Moore hesitasse no caminho a seguir. Se a introdução dos cósmicos “Warpsmiths” parece trocar um ridículo nas obras de super-heróis por outro, é muito interessante ver como se esboçam conceitos que o autor expandiria mais tarde em obras como “Promethea” (1999-2005), “Lost Girls” (2006) ou a sua adaptação de “Swamp Thing” (1984-87, onde a premissa sobre o alter-ego é semelhante). Entre a ficção-científica, o misticismo esotérico, ou até alguma verborreia intelectualizante, o final deste “Miracleman” mostra o óbvio: desconstruir é sempre mais “simples” do que construir. E se o “fim do mundo tal como o conhecemos” prenuncia já o final, mais decisivo na sua negra incerteza, de “Watchmen”, neste estimulante “Miracleman” Alan Moore contenta-se em arranjar um enredo que permita aos deuses caminhar sobre a Terra. Espalhando, como sempre, medo e dúvida com a sua terrível benevolência.

Miracleman. Argumento do “Escritor Original” (Alan Moore), desenhos de vários autores. G. Floy Studio. 384 pp., 25 Euros

SEXO


Usar o sexo enquanto tema nunca é linear. Até porque em banda desenhada há a possibilidade de o desenho poder atrapalhar, deixando poucas alternativas de registo que não o clínico ou o erótico-pornográfico, sobretudo o segundo. É o que tende a suceder com autores que privilegiam um realismo sensual, como os italianos Milo Manara ou Paolo Eleuteri Serpieri, em especial quando os argumentos não controlam bem esse fator, ou parecem meros veículos para o realçar. Um bom exemplo é “Druuna”, série de Serpieri retomada recentemente em Portugal pela Arte de Autor com “Anima”. Aqui o excelente desenho tende a esgotar-se em si mesmo, apesar de o facto de “Anima” ser um livro mudo (e descomplexado na sua simplicidade) lhe dar algum interesse formal. Mas mais raro do que introduzir elementos sensuais/sexuais numa obra, é falar abertamente sobre sexo, em vários dos seus múltiplos aspetos. É o que sucede na série “Criminosos do sexo”, uma bela iniciativa da Devir, com argumento do norte-americano Matt Fraction e desenhos do canadiano Chip Zdarsky.

Fundamental nesta obra é o trabalho de Fraction, extremamente hábil a cobrir diferentes tipos de questões relacionadas com o tema (prazer, aventura, amor, vergonha, ciúme, manipulação, mistério, repressão, culpa, preferências) utilizando uma estratégia que passa por misturar experiências concretas reconhecíveis, com doses de tragédia e humor que não deixam a história derrapar muito por causa do seu ponto de partida. Porque falta dizer que esta é uma série sobre sexo com matriz de super-heróis. Na verdade, ao escrever sobre “Criminosos do sexo” fica-se com a sensação clara que qualquer descrição não lhe vai fazer justiça, e pode afastar alguns leitores. Desde logo a premissa, que tenderá a parecer a de um mau filme erótico. Esta é uma série protagonizada por diferentes tipos de indivíduos, cada um banal à sua maneira, que têm como “superpoder” a capacidade de parar o tempo cada vez que têm um orgasmo. Durante curtos instantes podem deslocar-se numa realidade suspensa (a “calmaria”), mexer em objetos, roubar bancos, interagir com os seus concidadãos que não sabem estar paralisados. A história inicia-se quando os dois protagonistas se encontram, descobrindo uma capacidade partilhada que achavam única, e começam a estimular-se mutuamente para potenciar o seu uso, numa das muitas aproximações que Fraction faz às caraterísticas evolutivas de uma relação. Em paralelo trocam histórias de descoberta sexual desde a infância-adolescência, que não estariam deslocadas numa BD muito séria sobre o modo quase milagroso como a maioria das pessoas parece equilibrada apesar das suas experiências a este nível. Claro que, sendo um trabalho de Fraction (veja-se “Hawkeye”) a profundidade anda sempre de braço dado com o humor desbragado  “non-sense”, e rapidamente os protagonistas se vêm ameaçados por uma espécie de “polícia do orgasmo”, que procura evitar que o seu poder seja abusado, que “calmaria” rime com “anarquia”. Esta mudança constante de registos só é possível graças ao desenho de Chip Zdarsky, porque suficientemente realista e vibrante (particularmente no uso da cor) para gerir as situações humorísticas sem cair na caricatura, e as situações realistas e fantásticas sem deixar cair a credibilidade.
Com tudo para ser uma amálgama confusa de arrogância, superficialidade e, pior que tudo, mau gosto, “Criminosos do sexo” tem um pouco disso tudo, mas não exatamente como seria de esperar. E é uma das obras mais surpreendentes e estimulantes dos últimos tempos.


Criminosos do sexo, volume 1: Um truque estranho. Argumento de Matt Fraction, desenhos de Chip Zdarsky. Devir. 140 pp., 15 Euros.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

UNIÕES



A ideia é simples na sua genialidade: como conciliar diferentes universos ficcionais partindo da premissa que as distintas personagens tivessem sido contemporâneas? Não seria lógico pensar que Dr. Jeckyl/Mr.Hyde de Stevenson, Mina Murray (de “Drácula”), Alan Quartermain (de “As Minas do Rei Salomão”), Capitão Nemo de Jules Verne, o sexualmente camaleónico Orlando de Virginia Woolf, ou o Homem Invisível de H.G. Wells pudessem ter formado um grupo de super-heróis “pré-históricos”, embebidos na geopolítica do seu tempo, e lutando contra o Professor Moriarty e Fu Manchu? Essa é a premissa por detrás de “A Liga dos Cavalheiros Extraordinários”, série escrita por Alan Moore e desenhada por Kevin O’Neil, de que saiu recentemente o terceiro volume, “Século” (Devir).

Após início na DC Comics este volume (2009-2012) é publicado por pequenas editoras (Top Shelf nos EUA, Knockabout no RU), com o controlo total dos autores; e, se a “Liga” já era uma série delirante, a dupla inglesa aproveita a liberdade para construir uma reflexão em torno da evolução da sociedade e da cultura popular, no meio da qual a história apocalíptica em si acaba quase por ser secundária. Desde logo há uma simplificação de personagens, apesar de Moore incluir várias referências mais ou menos obscuras, em “Século” conta sobretudo o triângulo amoroso Mina/Orlando/Alan (Orlando como “joker” sexual na relação a três), com a descendência do Capitão Nemo como elemento perturbador. O “truque” primário da imortalidade dos protagonistas (versão literal da imortalidade literária) faz com que seja possível combater a mesma ameaça em três diferentes tempos de uma Londres “alternativa” (qualquer semelhança com a realidade não é coincidência) que compõem as três partes do livro. Em 1910 ainda sob a sombra de Jack o Estripador, e citando fortemente “A Ópera dos Três Vinténs” de Brecht e Weill (com canções e tudo) e a desigualdade social. Em 1969 com o psicadelismo e a sedação de multidões culminando num “punk” estéril, e incluindo na trama a teoria do assassinato do membro fundador dos Rolling Stones Brian Jones (obviamente que com contornos inesperados). Finalmente, o “presente” (2009) marcado por conflitos constantes e artificiais numa sociedade miserável e domesticada, que, apesar de tudo, poderia ser muito pior, não fora a “Liga de Cavalheiros Extraordinários” (ironicamente liderada por Mina) combater a ameaça velada desde início, e agora materializada, o Anti-Cristo. Nada menos do que Harry Potter. O que vale é que Mary Poppins surge para ajudar na luta final. Sim, “Século” é, no fundo, um assomo febril de referências (a pedir edições anotadas, como outros trabalhos de Moore), com as quais os autores são muito claros a formular opiniões, e em que nada (mas mesmo nada, nada, nada) se adivinha deixado ao acaso, do texto aos pormenores gráficos e caras perdidas na multidão que o desenho anguloso e elegante de O’Neil claramente se diverte a representar. Seguir uma história de desconstrução social marcada pela evolução da cultura popular é interessante, mas a surpresa da integração de citações díspares (das quais 10-90% poderão passar ao lado de um qualquer leitor) é o que transforma “A Liga dos Cavalheiros Extraordinários” numa hipnótica e confusa maravilha.

Não tem sido meu hábito falar de traduções: não só retira ao mérito da edição em si, como a qualidade tem melhorado. No entanto, com várias gerações treinadas no inglês como primeira língua estrangeira, é um pouco estranho que se continuem a cometer erros infantis (“constipation” não é uma vulgar “constipação”, só para citar um), e o texto pareça oscilar em termos de estilo ou emperrar constantemente, mesmo quando se usam vários tradutores e outros tantos revisores (ou por causa disso). É possível que o problema esteja relacionado com uma coisa boa: o volume de obras editadas e os prazos apertados, mas é uma questão (comum à G.Floy e Levoir) que contrasta com a excelente qualidade gráfica.

A Liga dos Cavalheiros Extraordinários, volume III: Século. Argumento de Alan Moore, desenhos de Kevin O’Neil. Devir. 250 pp., 35 Euros.

SELVA


Manuel Caldas é uma figura incontornável em termos de restauro de histórias clássicas de banda desenhada através da sua editora Libri Impressi; e o seu último projeto é um marco na BD portuguesa. “A lei da selva”, história protagonizada por leões em África, foi publicada originalmente na revista “O Mosquito” entre fevereiro e julho de 1948, e revela o primoroso trabalho gráfico de um dos maiores autores nacionais, Eduardo Teixeira Coelho, com texto de Raul Correia. Esta edição surge enriquecida com uma história curta de Coelho inédita em Portugal, e sobretudo com notas do editor, de José Ruy (discípulo de Coelho), e um bom enquadramento crítico de Domingos isabelinho, elementos que costumam faltar neste tipo de obras históricas.

Há duas formas de olhar para este livro, hoje. E não necessariamente sobre o bom e o menos bom, mas sobre o que o livro é, e o que não é. Apesar do esforço de contextualização de Isabelinho, o texto (excessivo, gongórico) de Raul Correia pode não atrapalhar agora que remontado para não cobrir partes do desenho, mas raramente ajuda. Desse ponto de vista, o contraste com a (totalmente distinta) história curta “Bodas índias” (publicada na revista espanhola “Chicos” em 1954) é evidente. Depois há a importante (e pouco referida) diferença de o livro poder ser lido em algumas horas, quando a história original foi apreciada página a página ao longo de meses numa revista. O que faz com que, se o desenho mantém o vigor, saltem à vista muletas narrativas (veja-se o uso repetitivo das palavras “fulvo” e “formidável”) que teriam passado despercebidas numa leitura semana a semana. Mas “A lei da selva” é, antes de mais, um tratado vibrante de movimento e emoções num irrepreensível preto e branco, que deve ser lido hoje por todos os autores com interesse em representações realistas. Para além do rigor anatómico E. T. Coelho tem capacidades inatas para um dinamismo dramático mas económico, capaz de resumir emoções poderosas e que impressiona sem excessos, ao contrário, por exemplo, do norte-americano Burne Hogarth, seu contemporâneo e uma grande referência a este nível.
Em termos de história “A lei da selva” não é nada do que aparenta a uma primeira vista. As longas horas de observação no Jardim Zoológico podem ter garantido uma representação correta do movimento e expressões animais, que Coelho utiliza de modo sublime, mas do ponto de vista etológico o livro dificilmente poderia estar mais errado quanto às caraterísticas e ao modo de vida dos leões que o protagonizam; e essa falta de rigor é um problema grave para qualquer olhar crítico. No entanto, pode contra-argumentar-se que este não é um livro sobre animais na savana, mas uma narrativa que resulta de antropomorfizações óbvias, com o pormenor de as personagens humanas nele retratadas serem o mais esquemáticas e o menos expressivas possíveis. O exercício mental a fazer é, simplesmente, trocar os leões por seres humanos. Aí sim, a história faz todo o sentido, e o comportamento é enquadrável numa trama de tragédia e redenção de um herói solitário, vista através do Portugal no final dos anos 1940. O que permite que, a coberto de uma narrativa poética, animalista e “irracional”, Coelho e Correia contem, numa revista infanto-juvenil, uma história cruel de extrema violência que não ficaria atrás de filmes de “gangsters” para adultos. Mais uma vez, o contraste com o cândido e inocente (embora problemático a outros níveis) “Bodas índias” não poderia ser maior.

“A lei da selva” é um notável trabalho que pode ser encomendado diretamente ao editor. É pena que o livro não possa contar com uma capa mais estimulante, bem como uma edição e distribuição com outros recursos (como sucedeu com “Os doze de Inglaterra”, também de Coelho, pela Gradiva). Mas é talvez o preço a pagar pela independência sem a qual Manuel Caldas não seria o editor que é.

A lei da selva. Desenhos de Eduardo Teixeira Coelho, texto de Raul Correia. Libri Impressi/Manuel Caldas (mcaldas59@sapo.pt). 60 pp., 12 Euros.