sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

CANÇÕES


Talvez o sinal mais intenso de uma (certa) maioridade na banda desenhada portuguesa seja, não tanto o considerável volume editorial, mas o consolidar de identidades fortes e coerentes nas editoras/editores mais interessantes. Algo que, e este é o principal mérito, torna as suas visões complementares, potencialmente abrindo o mercado a diferentes tipos de leitores, no sentido em que não é muito difícil perceber porque motivo uma obra foi editada pela Kingpin Books (Mário Freitas), e não pela GFloy (José de Freitas). Ou distinguir os interesses da Polvo (Rui Brito) dos da Mmmnnnrrrg/Chili Com Carne (Marcos Farrajota).

No caso da Kingpin Books há um fio condutor de um certo onirismo fantástico que perpassa as obras editadas a diferentes níveis, mesmo quando estas ancoram no real. Nem sempre resulta em pleno, mas o trabalho editorial tem sido digno de registo, como no mediático “O Elixir da Eterna Juventude”. Com argumento de Fernando Dórdio e desenhos de Osvaldo Medina este é, de facto, um livro que orbita (e fagocita) canções de Sérgio Godinho, com as letras dessas canções (ou suas referências) a comporem a maior parte do argumento. De resto o protagonista é uma versão do próprio Sérgio Godinho, surgindo, para além de personagens tiradas da sua obra, o Carteiro de António Mafra, Jeremias o Fora-da-Lei (Jorge Palma) e Zeca Afonso, avisando (agora e sempre) contra os Vampiros. A meta-narrativa assume-se em pleno quando a personagem “Sérgio Godinho” encontra a personagem “Fernando Dórdio”, que lhe orienta a demanda em busca do sentido da obra, rumo à imortalidade (artística). Esta é, pois, uma BD escrita em tom de homenagem, mas cujos mecanismos se ressentem da escolha de letras das canções como principal “cola” narrativa. Cada canção é um mundo, e tentar fazer de um concerto de mundos independentes (embora com referências comuns) uma história forte e una no estilo de Dórdio (“Agentes do C.A.O.S”; “Inspetor Franco: Caos e Ordem”) nunca seria tarefa fácil. Por outro lado, talvez um ensaio final/memória descritiva tivesse sido útil para situar leitores não tão familiares com o universo. 

Do ponto de vista gráfico Osvaldo Medina tem-se revelado um talentoso executante, pela fluidez do traço, o modo como compreende a linguagem e o marcar de ritmos narrativos (“A fórmula de felicidade”, “Kong, the King”), embora com menor fulgor no realismo “puro”. Curiosamente Medina admite ter como caraterística a rapidez de execução e, talvez essa capacidade o limite nalgumas obras recentes. Se na biografia de Agostinho Neto é a quantidade de texto que funciona como travão, resultando num livro ilustrado (e não tanto BD), em “O Elixir da Eterna Juventude” notam-se problemas na representação, expressões e movimento. O desenho é aqui mais rígido do que noutras colaborações com Fernando Dórdio, talvez prejudicado pela necessidade de ligação a pessoas reais/reconhecíveis. E a cor, oscilando entre uma neutralidade baça e uma agressividade exagerada, também não ajuda.
Em suma, “O Elixir da Eterna Juventude” é uma excelente ideia que merece ser descoberta por fãs de Sérgio Godinho, que se poderão dedicar à arqueologia das letras, e, sobretudo, a tentar “ouvir” as sonoridades das músicas ao longo do livro. Mas é uma BD que se estranha, e da qual se gostaria de ter gostado mais. Como o primeiro gomo da tangerina.


O Elixir da Eterna Juventude. Argumento de Fernando Dórdio, desenhos de Osvaldo Medina (cor de Joel de Souza). Kingpin Books. 90 pp., 13 Euros.

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