sábado, 23 de junho de 2018

MEDIÁTICO


A editora GFloy Studio tem feito um bom trabalho no que diz respeito ao volume e relação qualidade/preço das edições. Mas a sua principal virtude é a escolha de séries que, bebendo a essência de super-heróis/ficção-científica/fantasia/horror/policial, transformam-na em algo mais interessante do que as referências originais. Com o mérito adicional de manter uma regularidade de lançamentos. Neste caso temos uma continuação, três estreias.
Já muito discutida, a ópera espacial “Saga” de Brian K. Vaughn e Fiona Staples, é um excelente exemplo de como ingredientes habituais de ficção-científica podem ser transcendidos, aplicando uma abordagem realista às relações “humanas” (casais, pais e filhos, amigos/inimigos, crenças, posições políticas), que vão evoluindo, crescendo e definhando ao ritmo da narrativa. Cujo contexto é estranho apenas até nos apercebermos das inspirações que estão na sua génese. Se Romeu e Julieta tivessem sobrevivido, ter-se-iam divorciado? É este o tipo de provocação comum em “Saga”.

Também de ficção-científica espacial não é ainda possível definir totalmente “Descender”. A não ser para registar uma interessante temática de Inteligência Artificial, e a definição intimista de contexto e personagens por parte do argumentista Jeff Lemire (que trás sempre algo de surpreendente), mas sobretudo o desenho quase diáfano de Dustin Nguyen, que de início parece deslocado, até se perceber que dá o tom exato à vertente de descoberta pessoal da obra. Já “Imperatriz” de Mark Millar e Stuart Immonen parece, neste primeiro volume, pouco convincente, num registo comum a “Saga”, “Descender” (e muitas outras), que se resume a isto: “tudo o que achávamos ser verdade é mentira, e ninguém é o que aparenta”. Qual é o problema? É que esta receita funciona tanto melhor quanto menos se der por ela. Neste caso, entre perseguições e conflitos previsíveis e, sobretudo, com personagens pouco aprofundadas, demasiado óbvias ou demasiado misteriosas, a ligação terá de ficar para outro volume.

De resto não é infrequente isso acontecer com Mark Millar (e o seu Millarverse), acusado de desenvolver conceitos de maneira apressada em BD, com o objetivo de os vender mais facilmente ao cinema; como sucedeu, por exemplo, com “Kingsman”, “Kick-Ass”, ou “Wanted”. É possível, mas relevante é saber se as obras valem por si mesmas. E “O legado de Júpiter“ é, a par de “Saga”, a mais recomendável destas propostas da GFloy. 

É certo que o estratagema narrativo de imaginar de modo (mais ou menos) realista os super-heróis enquanto cidadãos, e trabalhar a sua potencial influência na sociedade (de bombeiros a ditadores) não é nada novo, considerando “Watchmen” e “Miracleman” (com argumentos de Alan Moore), ou “Marvels” e “Astro City” (escritas por Kurt Busiek, a segunda é uma clara falha editorial entre nós). Para além da elegância do traço de Frank Quitely, o que “O legado de Júpiter” acrescenta é uma abordagem aos super-heróis que joga de maneira muito inteligente com aquilo que teria de ser o mediatismo de tais personagens num mundo “real”, da modéstia recatada de alguns, ao comportamento tipo “reality show” e aspirações políticas de outros. 


No entanto, apesar da inspiração ser óbvia, haver pontos de contacto com “Saga”/Moore/Busiek (mais todos os “X-Men”), e faltar concretização na componente político-económica, “O legado de Júpiter” tem personagens credíveis, que, por acaso, também têm superpoderes. Quando se contam histórias com pessoas inacreditáveis a primeira coisa a fazer trazê-las para o mundo, dar-lhes uma dimensão humana. Para que seja plausível o momento inevitável em que os seus poderes estragam tudo.


O legado de Júpiter 1: Luta de Poderes. Argumento de Mark Millar, desenhos de Frank Quitely. GFloy Studio. 136 pp., 14 Euros.
Imperatriz 1. Argumento de Mark Millar, desenhos de Stuart Immonen. GFloy Studio. 192 pp., 16 Euros.
Saga 7. Argumento de Brian K. Vaughn, desenhos de Fiona Staples. GFloy Studio. 152 pp., 12 Euros.
Descender 1: Estrelas de lata. Argumento de Jeff Lemire, desenhos de Dustin Nguyen. GFloy Studio. 152 pp., 14 Euros.

AUTÓPSIA

Há obras absolutamente essenciais na sua monumentalidade (qualquer que seja o formato), que, para além do elogio que resulta da edição, merecem algo muito simples: serem lidas. Chamem-se “Bíblia”, “Dom Quixote”, “Ulisses”. Ou “From Hell”/“Do inferno” de Alan Moore e Eddie Campbell, editada em finais de 2017 pela Devir numa iniciativa que merce todo o aplauso. Apesar de existirem questões não triviais relacionadas com a tradução/texto, estas têm de se relativizar numa obra que explora, não apenas os assassínios atribuídos a Jack o Estripador em 1888, mas toda a envolvência sociocultural, no fundo fazendo uma autópsia da época vitoriana. Que, e isto é talvez o mais relevante, na sua essência se estende pelas Guerras Mundiais até aos nossos dias, com outras matrizes, mas mantendo as mesmas estruturas de poder, seja político, económico, mágico, religioso ou qualquer outro. Mais ou menos autoritário, mais ou menos democrático. 

Publicada em fascículos entre 1989 e 1998, e mais tarde reunida em livro, esta é uma obra-limite de vários pontos de vista. Para além das mais de 500 páginas de BD, há copiosas notas, nas quais Alan Moore explica as fontes consultadas e o raciocínio que esteve na base de cada representação ou diálogo (mesmo que estes sejam todos inventados). Não é algo menor: neste caso as notas são parte integrante da obra, e devem ser lidas em paralelo, cena a cena. Noutra perspetiva: dadas as ligações (surpreendentes? estapafúrdias?) sugeridas, o modo como forem (ou não) lidas transforma “Do inferno”. Há também elementos de meta-narrativa onde Moore discorre sobre o grau de verosimilhança de cada opção, bem como potenciais alternativas, e refere mesmo pontos de desacordo com o desenhador Eddie Campbell. O qual, por sua vez, utiliza de forma brilhante o seu estilo numa sucessão de linhas cruzadas a preto e branco, das quais tanto pode emergir uma névoa londrina de enganos, como detalhes cristalinos, desviando-se por vezes pela aguada em representações fora do bairro infecto de Whitechapel. A planificação-base inclui três linhas de três vinhetas cada por página, uma simplicidade enganadora que pode ser utilizada para vincar uma ação ou criar paralelismos entre eventos. Mas sobretudo induz no leitor uma regularidade que alerta quando a regra não é mantida, como a apresentação da Rainha Vitória, os cenários dos crimes, ou as igrejas eivadas de simbolismo do arquiteto barroco Nicholas Hawksmoor. Neste último caso é evidente a dissecção metafórica da Londres-protagonista (tão detalhada quanto a de Mary Kelly realizada pelo Estripador), apresentada através de um discurso que, cruzando simbolismos de todas as correntes (pagãos, gnósticos, maçónicos, cristãos), não deixa de ser por vezes pedante (escudado na natureza do protagonista humano), criando o contraste entre o erudito e o ignaro, o conhecimento e a ignorância, a beleza e a brutidade; que são a base de todas as sociedades.

No meio disto tudo talvez o menos relevante seja a teoria defendida em “Do inferno” quanto à identidade do Estripador. Sendo esta uma obra de ficção tem, ao contrário de um documentário, de propor algo concreto, e a escolha (baseada sobretudo numa fonte) tem implicações na estrutura. O presumível culpado, bem como a evolução pessoal e social que o terá levado a encarnar “Jack”, é apresentado logo no início, e o encadear de eventos gerido de forma lógica; incluindo uma vasta conspiração (cuja credibilidade será avaliada por cada leitor) criada para ocultar os crimes. Mas os próprios autores estão cientes das limitações especulativas do livro, semelhantes a todos os outros sobre a temática. Paira no fim uma mensagem fundamental: na sua concretização, investigação e possíveis ocultações, este foi um crime coletivo, cometido sobre as mais vulneráveis. Um tipo de crime que tende a ficar sem castigo.


Do inferno. Argumento de Alan Moore, desenhos de Eddie Campbell. Devir. 576 pp., 40 Euros.

domingo, 15 de abril de 2018

SACIAR


Pensadas inicialmente para a revista “Granta” (só uma foi publicada na altura) as duas histórias que compõem “Comer/Beber” (Tinta da China) constituem a mais recente, e muito badalada, obra da dupla Filipe Melo e Juan Cavia. “Sleepwalk” (comer) tem como fulcro uma tarte de maçã (a receita está no fim do livro), e passa-se entre o Arizona e o Texas, em 1984. “Majowski” (beber) gira em torno de uma garrafa de champanhe, e tem lugar sobretudo num restaurante em Berlim, entre 1935 e 1943. 

Se o ritmo de “Sleepwalk” faz jus ao título, a história surpreende por aquilo que não diz, um relato de dissolução inexorável feita de solidões cruzadas, que o leitor terá de reconstruir. Como um conto escrito por Sam Shepard, inspirado por imagens de Edward Hopper iluminadas pelas cores do deserto. Até pelo fôlego temporal, “Majowski” é mais complexa, talvez também porque baseada em eventos reais (há um pequeno dossiê no final), contando com colaborações no argumento e arte, e com cores apropriadamente mais carregadas. Aqui o principal mérito é o modo como, em curtos episódios numa história já de si curta, texto e desenho conseguem definir de forma credível a evolução necessariamente complexa de personagens e do próprio regime nazi ao longo de vários períodos (da glória de Marlene Dietrich, aos bombardeamentos dos aliados). Fugido da Polónia em 1917, o protagonista vê-se enredado num ambiente que o projeta, ao mesmo tempo que o oprime, e essa contradição é muito bem trabalhada. Uma contradição que espelha, num certo sentido, a posição do protagonista de “Sleepwalk”, simultaneamente amigo e carrasco.

Distante das citações pop do cinema fantástico na série “Dog Mendonça e Pizzaboy”, ou da abordagem alegórica mais “pesada” da Guerra Colonial de “Os Vampiros”, no díptico “Comer/Beber” parece haver alguma preocupação em manter referências universalizantes reconhecíveis que lhe concedam desde logo outra dimensão de leitura; sejam a Berlim hitleriana, ou os grandes espaços do sudoeste dos EUA. Mas estas são claramente histórias mais intimistas, que respiram a evolução de uma época (“Majowski”) ou o silêncio (“Sleepwalk”). Onde o saciar de duas necessidades básicas surge enquanto redenção que transcende o momento, graças a uma garrafa que sobrevive anos de chumbo, ou a uma receita que ressuscita uma última vez. E nas quais, de forma reveladora, não há sinal dos elementos sobrenaturais ou fantásticos que caraterizaram as obras anteriores.
Perguntar-se-á: mas, dada a sua aparente simplicidade (mormente quando comparada com “Os Vampiros”), merece “Comer/Beber” todo o destaque mediático que teve? Sem dúvida, não só pelo modo inteligente como estão construídas as duas histórias, mas por poderem representar um primeiro passo muito interessante rumo a outro tipo de narrativas na evolução da dupla Melo e Cavia. Não é que a pergunta não seja válida, está é mal formulada. O problema não é o espaço que Filipe Melo soube conquistar, antes os (misteriosos) critérios que parecem limitar destaques similares para as muitas notáveis obras (incluindo de autores portugueses) que as nossas excelentes editoras de banda desenhada têm vindo a publicar.


Comer/Beber. Argumento de Filipe Melo (com Nádia Schilling), arte de Juan Cavia (com Juan Cruz Rodriguez e Sandro Pacucci). Tinta da China. 64 pp., 12 Euros.




segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

ESPETROS


A banda desenhada japonesa começa a ter uma visibilidade maior entre nós, sobretudo com a edição de obras de grande fôlego e, até, peso histórico. É o caso da coleção Tsuru da Devir, que lançou o monumental “Nonnonba”, de Shigeru Mizuki (1922-2015). 


Publicado originalmente em 1977 “Nonnonba” viria a ganhar o prémio para melhor álbum no Festival de Angoulême... em 2007. E foi um dos eventos da BD em Portugal em 2017. Trata-se de um “mangá” fundamental, que urge conhecer, e, sobretudo, merece ser julgado sem o imediatismo pateta de quem dá opiniões prestando atenção superficial apenas ao desenho. O traço caricatural e “simples” de Mizeru adequa-se na perfeição a um relato em grande medida autobiográfico, onde abundam situações perturbadoras de violência (social e psicológica) caraterísticas de uma sociedade conservadora, hierarquizada e ritual. Mas onde também há lugar para a descoberta, o humor e a magia.
Em curtos episódios Mizeru retrata episódios da sua infância numa pequena aldeia, marcada pela ligação a Nonnonba, uma espécie de “avó honorária”, repositório de histórias e lendas do antigo folclore japonês, sobretudo relacionadas com os “yokai”, que o autor absorve, e que utilizaria ao longo da sua obra. Fantasmas, espíritos, demónios com vários tipos de caraterísticas que assombram e influenciam comportamentos humanos, os “yokai” surgem como pontuação/influência para diversas situações na vida das personagens. O mundo prosaico de dinâmicas familiares, escolares e sociais é assim complementado pelo mistério impenetrável de “outros mundos”, numa tentativa de explicar as fragilidades dos vivos. Ao longo das muitas páginas de “Nonnonba” sente-se o espírito humanista do autor a tomar corpo, as grandes escolhas (artísticas e éticas) a definirem-se contra as correntes habituais da época. E espera-se que as suas experiências enquanto soldado na Segunda Guerra Mundial, outro momento que definiria o seu universo em torno da gestão do horror potencial no mundo, possam ser a aposta seguinte.

 “Bruxas” (2015, no original “Wytches”) da GFloy toca temas semelhantes ao livro de Mizuki, embora o registo seja totalmente diferente, e atraia outros leitores. Este é um relato de horror numa cidade pequena da costa leste dos EUA perdida numa perturbadora floresta, e ao qual o argumentista Scott Snyder concede personalidade própria ao modificar elementos “clássicos”, dando-lhes uma outra roupagem/significado metafórico, e utilizando muito bem os recursos gráficos de Jock e Hollingsworth. No fundo, falamos (sem qualquer desprimor) de cenários e receitas narrativas típicas de Stephen King. 

O fulcro comum aos dois livros são os elementos (eventualmente) sobrenaturais que condicionam a existência das personagens humanas e que, no limite, podem explicar (ou desculpabilizar) comportamentos, resgatando a nossa imperfeita humanidade. “Bruxas” é eficiente a seguir instruções caraterísticas do género, mas tem a subtileza de um trator. “Nonnonba” pisa mais delicadamente um território semelhante à superfície, mas é muito mais profundo nas suas implicações, deixando ao leitor a tarefa de deslindar a riqueza humana por entre os fantasmas. Ou vice-versa.


Nonnonba. Argumento e desenhos de Shigeru Mizuki. Devir. 420 pp., 25 Euros.
“Bruxas (Wytches)”. Argumento de Scott Snyder, desenhos de Jock (cores de Matt Hollingsworth). GFloy. 192 pp., 16 Euros.


sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

METÁSTASES


Há temas mais duros e difíceis do que outros. Há mesmo temas que não sabemos sequer como começar a abordar; ou como reagir se outros os abordam, sobretudo quando os abordam de forma simultaneamente crua e inteligente. Mas há também um preço a pagar pelo silêncio, pelo arrumar de problemas onde (esperemos) não nos assombrem. O conjunto de ilustrações mudas que compõem o livro “cancer” de Tilda Markström (Mmmnnnrrrg) são uma resposta possível a este tipo de inquietações, um conjunto de notáveis desenhos à volta do (de um) cancro, da sua evolução e, sem rodeios, da morte que dele resultou, já que nem sempre a Arte resgata. 

Mas “cancer” é também uma reflexão sobre a perda e de como a dor pode formar metástases, tanto como o tumor em si. A qualidade evocativa e sintética das ilustrações conta uma história clara e inexorável sem necessidade de palavras. Mas, para além de alguns pormenores do traço, são as iniciais a denunciar o autor. De facto, Tiago Manuel lança aqui mais um dos seus heterónimos, uma pintora sueca com um estilo mais simples e mais direto na sua simbologia do que a maioria dos heterónimos anteriores. Uma autora capaz de fazer passar imagens líricas, seguidas de violência, seguidas de dor, seguidas de várias formas de ausência, sendo as piores as que se adivinham sem se ver. Desde o diagnóstico, aos tratamentos e suas sequelas, à morte adivinhada por um cobertor vazio, seguimos um percurso de desagregação quase desejando não o fazer, mas não evitando virar as páginas. Para ir atrás da aranha/caranguejo que representa a doença, a teia que a espalha, as cicatrizes de mastectomia, as próteses, as metástases vermelhas, implacáveis, conquistando todo o corpo. Lançar este livro numa época natalícia pode parecer estranho, mas é exatamente o que a obra pede. Chocar, não no sentido de chocante, mas no sentido de abordar (atropelar?) o leitor de frente.

Em “cancer” há pormenores reveladores quanto ao modo íntimo com que Tiago Manuel aqui se expõe. A obra, diz a ficha técnica, estava pronta há treze anos. “Tilda Markström” faleceu em 2012, de acordo com a biografia apresentada; é duvidoso que a voltaremos a apreciar. As cartas (bilingues, português e inglês) que procuram contextualizar a perda de uma companheira no final do livro (de modo um pouco supérfluo, até) soam a um ambiente familiar do sul da Europa, embora nem toda a vida familiar na Suécia seja certamente como a retratou Bergman. E o vulto fantasmagórico que ampara a paciente na parte final é claramente masculino. Pouco importa. Com os desenhos que compõem “cancer” Tilda Markström ajudou Tiago Manuel a por em imagens algo que se percebe muito doloroso. Criando uma sublimação brilhante que, e isto é o que mais importa, transcende as circunstâncias concretas da sua génese, podendo (devendo) ser apreciado por todos os que algumas vez sofreram perdas. Por todos, portanto. Desse ponto de vista este heterónimo cumpriu plenamente o seu papel. Que descanse agora em paz.


cancer. Texto e desenhos de Tilda Markström (Tiago Manuel). Mmmnnnrrrg. 102 pp., 20 Euros.

CANÇÕES


Talvez o sinal mais intenso de uma (certa) maioridade na banda desenhada portuguesa seja, não tanto o considerável volume editorial, mas o consolidar de identidades fortes e coerentes nas editoras/editores mais interessantes. Algo que, e este é o principal mérito, torna as suas visões complementares, potencialmente abrindo o mercado a diferentes tipos de leitores, no sentido em que não é muito difícil perceber porque motivo uma obra foi editada pela Kingpin Books (Mário Freitas), e não pela GFloy (José de Freitas). Ou distinguir os interesses da Polvo (Rui Brito) dos da Mmmnnnrrrg/Chili Com Carne (Marcos Farrajota).

No caso da Kingpin Books há um fio condutor de um certo onirismo fantástico que perpassa as obras editadas a diferentes níveis, mesmo quando estas ancoram no real. Nem sempre resulta em pleno, mas o trabalho editorial tem sido digno de registo, como no mediático “O Elixir da Eterna Juventude”. Com argumento de Fernando Dórdio e desenhos de Osvaldo Medina este é, de facto, um livro que orbita (e fagocita) canções de Sérgio Godinho, com as letras dessas canções (ou suas referências) a comporem a maior parte do argumento. De resto o protagonista é uma versão do próprio Sérgio Godinho, surgindo, para além de personagens tiradas da sua obra, o Carteiro de António Mafra, Jeremias o Fora-da-Lei (Jorge Palma) e Zeca Afonso, avisando (agora e sempre) contra os Vampiros. A meta-narrativa assume-se em pleno quando a personagem “Sérgio Godinho” encontra a personagem “Fernando Dórdio”, que lhe orienta a demanda em busca do sentido da obra, rumo à imortalidade (artística). Esta é, pois, uma BD escrita em tom de homenagem, mas cujos mecanismos se ressentem da escolha de letras das canções como principal “cola” narrativa. Cada canção é um mundo, e tentar fazer de um concerto de mundos independentes (embora com referências comuns) uma história forte e una no estilo de Dórdio (“Agentes do C.A.O.S”; “Inspetor Franco: Caos e Ordem”) nunca seria tarefa fácil. Por outro lado, talvez um ensaio final/memória descritiva tivesse sido útil para situar leitores não tão familiares com o universo. 

Do ponto de vista gráfico Osvaldo Medina tem-se revelado um talentoso executante, pela fluidez do traço, o modo como compreende a linguagem e o marcar de ritmos narrativos (“A fórmula de felicidade”, “Kong, the King”), embora com menor fulgor no realismo “puro”. Curiosamente Medina admite ter como caraterística a rapidez de execução e, talvez essa capacidade o limite nalgumas obras recentes. Se na biografia de Agostinho Neto é a quantidade de texto que funciona como travão, resultando num livro ilustrado (e não tanto BD), em “O Elixir da Eterna Juventude” notam-se problemas na representação, expressões e movimento. O desenho é aqui mais rígido do que noutras colaborações com Fernando Dórdio, talvez prejudicado pela necessidade de ligação a pessoas reais/reconhecíveis. E a cor, oscilando entre uma neutralidade baça e uma agressividade exagerada, também não ajuda.
Em suma, “O Elixir da Eterna Juventude” é uma excelente ideia que merece ser descoberta por fãs de Sérgio Godinho, que se poderão dedicar à arqueologia das letras, e, sobretudo, a tentar “ouvir” as sonoridades das músicas ao longo do livro. Mas é uma BD que se estranha, e da qual se gostaria de ter gostado mais. Como o primeiro gomo da tangerina.


O Elixir da Eterna Juventude. Argumento de Fernando Dórdio, desenhos de Osvaldo Medina (cor de Joel de Souza). Kingpin Books. 90 pp., 13 Euros.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

PONTE


A essência, resumida, do Festival de Banda Desenhada da Amadora é que vale sempre a pena visitar pela qualidade expositiva e dilúvio de lançamentos que representa. Há, no entanto, fragilidades organizativas e critérios que se têm tornado monocromáticos, evidentes nos prémios concedidos pelo Festival, de resto irrelevantes fora do universo estrito da BD. Dito isto, “Deserto/Nuvem” de Francisco Sousa Lobo (Chili Com Carne) é um livro excelente que merece ampla divulgação, a juntar aos prémios de melhor álbum português, e (mais questionável) melhor argumento.

A obra é, na verdade, composta por dois livros, unidos umbilicalmente pelos fins, numa encadernação magnífica, que sublinha o trabalho de autor e editor. O ponto de partida comum é a vida dos monges no Convento de Santa Maria Scala Coeli, mais conhecido como Convento da Cartuxa, em Évora (no concreto); e as escolhas radicais de clausura, contemplação, afastamento do mundo e silêncio, preconizadas pela Ordem fundada por São Bruno de Colónia em 1084, e de como se relacionam com outros modos de vivenciar o catolicismo (enquanto conceitos).
Em ambos os livros se entranham o desenho e planificação ascéticos de Sousa Lobo, definidos por espaços vazios e marcados por uma única cor a jogar com o preto e branco. “Deserto” (com o subtítulo, Francisco Sousa Lobo à volta da Cartuxa) tem a cor da terra seca do Alentejo, e nele o autor revela um pouco da história familiar que culmina na sua viagem de uma semana, para conhecer o Convento e os seus habitantes por dentro, e fazer uma banda desenhada. Com o azul como cor de acento, “Nuvem” (Francisco Sousa Lobo sobre a Cartuxa de Évora) consiste numa série de cartas gráficas do autor aos monges cartuxos, nas quais reflete sobre diferentes aspetos que cruzam visões da religião (católica) e da arte, misturados com o seu percurso e referências pessoais. Cartas que, dado o isolamento dos seus destinatários anónimos, nunca teriam resposta. Uma obra mais “interna” outra mais “externa”; uma jogando com princípios (que talvez nunca se concretizem), a outra apreciando realidades que talvez desiludam (por nunca espelharem a ideia que se tem dos princípios). Não se trata aqui só de pensar a contemplação enquanto arte, mas questionar se não pode também ser (outra) máscara, se fica algo por dizer no silêncio que valha a pena ser dito. Até porque, ao “falar” enquanto autor Sousa Lobo quebra o ideal que admira, mas ao qual não consegue aderir. E, como em outros trabalhos seus, tocam-se as fronteiras entre religião organizada e misticismo, incluindo a instabilidade mental associada a ambos. E não menos à Arte, porventura.


 No caminho que levou a “Deserto/Nuvem”, que se pressente longo e hesitante (a vários níveis), Sousa Lobo tenta construir pontes frágeis entre estes vários aspetos, como o harmónio de cartão que une os livros. E, sobretudo, procura acreditar nelas. Para além do fascínio com a vida e opções dos cartuxos, e os paralelos que o autor estabelece com a sua arte, este é sobretudo um catálogo de dúvidas sem resposta. Como se duas obras semifalhadas ou incompletas se resgatassem e engrandecessem mutuamente pela união enquanto gémeas siamesas invertidas; o onirismo poético de uma elevando-se na realidade de um Alentejo moribundo e sem rumo da outra; a qual, por sua vez, ancora a anterior. Na sua construção inclassificável este é um excecional trabalho de Francisco Sousa Lobo, com elogios extensíveis à Chili Com Carne. Seria uma pena se (como os trabalhos de autores como António Jorge Gonçalves, Tiago Manuel ou Diniz Conefrey) não passasse bem para lá do universo da banda desenhada e dos seus rituais.


Deserto/Nuvem. Argumento e desenhos de Francisco Sousa Lobo. Chili Com Carne. 64 + 124 pp., 18 Euros.