segunda-feira, 27 de novembro de 2017

AUTORES


Já aqui se referiu que a Arte de Autor tem assumido a linha editorial que vinha da Meribérica e ASA, de certo modo interrompida (fora exceções pontuais) aquando da entrada desta última no grupo Leya. Note-se que o trabalho editorial é muito bom, e há apostas contemporâneas interessantes (“Eu, Assasino”, “O azul é uma cor quente”). Mas a ligação é clara quando, por exemplo, não se podendo editar “Blake & Mortimer” (um sucesso de vendas cujos direitos não seriam fáceis de adquirir), se editam paródias menores dessa série (“SOS Meteorologia”, de Veys e Barral), ou uma biografia do seu criador, Edgar Pierre Jacobs, com o mesmo tipo de registo gráfico. No entanto, e apesar de tom ainda assim reverencial que a obra adota, “A Marca Jacobs”, de Rodolphe e Alloing é um trabalho que vale a pena conhecer, sendo sobretudo interessante o percurso histórico e os acasos e rivalidades que levaram à construção do chamado estilo “linha-clara” (com Hergé como importante “personagem secundária”, neste caso).
Por outro lado, e para além de “Corto Maltese”, a editora tem apostado em criadores italianos, republicando a série “Druuna” de Paolo Eleuteri Serpieri (n. 1944), incluindo os dois primeiros episódios (“Morbus Gravis” e “Druuna”, aqui designado “Delta”) num único tomo. Uma história de ficção-cientifica num mundo em dissolução, e numa era (1986-87) em que os “mutantes” gerados por exposição a radioatividade substituíam os “zombies” enquanto “leitmotiv” desestabilizador, “Druuna” pode ser lida como glosando os perigos e a opressão de um mundo tecnológico que perdeu a alma. Ou enquanto desculpa para um registo de erotismo “soft-core” com variantes S&M às quais a protagonista é submetida, por necessidades narrativas, e de modo algum por facilidade ou voyeurismo... Ou, sem ironia (até porque a edição é “para adultos”), como ambas as coisas. De facto, o desenho de Serpieri é fabuloso dentro do género realista, a história interessante e o universo convincente (sobretudo nas partes mais esquálidas). Apesar de tudo, “Druuna” mantém qualidades e merece ser (re)apreciada hoje, sobretudo por quem não a conhecer.



Um outro autor da mesma geração em que a editora aposta é Milo Manara (n. 1945), lançando o mais recente (a excelente primeira parte de “Caravaggio”) e um dos mais antigos, “O Rei Macaco” (1977), uma colaboração com o argumentista Silverio Pisu (1937-2004). É certo que é inevitável ligar “Druuna” às “mulheres de Manara”, considerando, não só o traço de ambos os autores, mas o modo estereotipado com que retratam figuras femininas, e ao facto de Manara ter a mesma tendência de Serpieri para descair num erotismo avulso (como muitos pintores “clássicos” que raramente são criticados por isso, poder-se-ia argumentar). Mas o preto e branco de “O Rei Macaco” está muito distante, por exemplo, de “O Clic”. O argumento de Pisu recria a antiga lenda chinesa do mesmo nome, seguindo os principais momentos do protagonista homónimo de forma bastante fiel, da cosmologia à evolução do herói (de rebelde, a imortal, a burocrata, a libertador, a prisioneiro). Injetando aqui e ali modernidade nas lições sobre crescimento, poder e orgulho que estão na base da narrativa. Mas esta é uma história imaginada na Itália dos anos 1970, e alguns elementos não budistas ou taoistas refletem também um momento sociopolítico mais ou menos revolucionário (se bem que não cego, nem dogmático), ao qual a história (também) de adapta.

Na verdade, se há crítica a fazer às excelentes edições de “O Rei Macaco” e “Druuna” é que se perdeu a oportunidade para uma contextualização apropriada, que vincasse o seu lugar histórico. Mesmo que os livros “valham por si mesmos” e apenas se tenha pensado num público que já os conhece (o que é legítimo, mas redutor), já não são exatamente os que foram lidos há 30-40 anos. O mundo mudou, e poucos livros ficam na mesma.

O Rei Macaco. Argumento de Silverio Pisu, desenhos de Milo Manara. Arte de Autor. 90 pp. 20 Euros.
Druuna (Morbus Gravis & Delta). Argumento e desenhos de Paolo Eleuteri Serpieri. Arte de Autor. 150 pp. 21 Euros.

CAMINHAR


O interesse mais generalizado pela banda desenhada japonesa (“mangá”) no ocidente relacionou-se, numa primeira instância, com material que servia de base a desenhos animados. De tal modo que muitos olharam inicialmente para o “mangá” (com as suas particularidades narrativas e gráficas, ritmos alucinantes e desenho esquemático tipificado, sobretudo nas figuras humanas) como algo menor, porque não há nada mais atreito a estigmatizar do que estigmatizados. Não foi só um autor a mudar essa perceção, mas não há dúvida que a carreira de Jiro Taniguchi (1947-2017), talvez o mais “ocidental” dos “mangaká”, contribuiu para isso, como atenta, entre muitos outros reconhecimentos, ter sido nomeado Cavaleiro da Ordem das Artes e Letras em França em 2011. Em Portugal, e para além de outros livros, basta sinalizar que o recente lançamento de “O homem que passeia” pela Devir é já a segunda versão desta obra, desta feita editada no sentido de leitura original (do “fim” para o “princípio” do livro, e da direita para a esquerda na página), embora a diferença a esse nível seja mínima; se é que existe, a não ser que se leia em japonês (por algum motivo se fala em “tradução”). Seja como for, esta é uma obra importante que quem não conhece deve conhecer, e os “poemas gráficos” de Taniguchi são mesmo muito recomendáveis para leitores atentos que dizem não gostar de BD.

Em “O homem que passeia” há dois tipos de relatos curtos (nunca são bem “histórias”), a maioria poder-se-ia designar como “domésticos”, os últimos três centrados em mulheres (agora) ausentes. Em qualquer caso com um protagonista anónimo que (re)descobre recantos familiares ou subúrbios desconhecidos caminhando, encontrando paisagens, locais e gente anónima, fazendo recados concretos, ou vagueando ao acaso. Nestas histórias contemplativas de espírito quase “zen” onde se parece passar muito pouco (e com muito poucas palavras) há dois elementos que chamam a atenção. Primeiro, o detalhe no desenho primoroso a preto e branco (na antítese dos clichés sobre “mangá”), criando um universo que o argumento, a uma primeira vista, não parece pedir, mas que por isso mesmo se torna tão vivo e profundo. Segundo, o facto de um leitor não conseguir deixar de projetar naqueles momentos algo de si mesmo, quanto mais não seja para preencher a história do protagonista que caminha; tentar entender (ou inventar) o que, literal e figurativamente, o move. Se há momentos em que há vontade de entrar sem hesitações no universo, e nos rendermos à serenidade meditativa que emana das páginas, outras há em que a vontade é ficar de fora, imaginar os segredos ou frustrações que o protagonista também deve carregar consigo, e que sublinha caminhando.
Esta última leitura surge mais nas últimas histórias, porquanto mais concretas ao nível de um argumento convencional. Se bem que só a última, o relato do sabor a perda que ficou de uma relação adúltera, entretanto terminada, se aproxima de uma forma mais convencional; contando também com um desenho mais contrastante e menos detalhado, de certo modo a vincar a diferença também do ponto de vista gráfico. Nas restantes voltamos a passear por quotidianos presentes ou perdidos, reais ou (ligeiramente) imaginados, tendo como ponto comum uma presença feminina que serve como pretexto para divagações mentais e temáticas, como um espelho dos percursos aleatórios de protagonistas que parecem buscar experiências novas ou memórias adulteradas, perdidas há muito tempo atrás.

As historias de Jiro Taniguchi não são propriamente “simples”. Quer dizer, são se o leitor assim quiser, e dependendo do que nelas quiser projetar. Sobretudo, convidam a andar; relembram que o caminho pode ser bastante mais interessante que o destino. Espera-se que este caminho editorial da Devir, a prometer novas obras de referência em termos de BD japonesa, seja igualmente bem-sucedido.


O homem que passeia. Argumento e desenhos de Jiro Taniguchi. Devir. 250 pp., 20 Euros.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

CORTO


Nada mais apropriado do que uma ressurreição para uma revisitação, mais a mais quando a editora Arte de Autor assume a “herança” de uma linha que vem da Meribérica/ASA, e que é estranho chamar “clássica”, porque só o é para a nossa tradição de mercado (mesmo assim, já não tanto); e ainda menos designar “franco-belga”, já que a maioria das apostas com impacto até são de autores italianos. Como Manara e Serpieri. Ou Hugo Pratt (1927-1995).

Nota prévia: o meu filho (n. 2000) chama-se Hugo porque “Maltês” não é nome próprio, e “Corto” seria pior ainda... Mas é bom recordar que “A balada do mar salgado” (1967) é um relato de aventuras nos Mares do Sul com o Oceano Pacífico como maior figura, e apenas capas posteriores põem o marinheiro maltês em destaque. Corto foi-se sobrepondo a Caïn e Pandora Grovesnore, aos loucos Rasputine e “Monge”, aos nobres condenados Crânio e Slütter. Ficou Rasputine como contraponto para o futuro, Caïn e Pandora como destinos que poderiam ter sido, mas só no final nasce o Corto Maltese protagonista. O interesse hipnótico deste livro é o entrelaçar de temas e a profundidade das personagens com percursos complexos, nas quais é difícil apontar “bons” e “maus”, dando-se igual peso a ponto de vistas díspares (alemães e ingleses; indígenas e ocidentais). Há ação, viagens, aventura, mitologia, antropologia, geografia, política, geoestratégia, intrigas familiares. Com um fundo que inclui o início da guerra de 1914-18, onde manobras obscuras e fins justificarão meios (sacrificando Slütter); bem como o confronto entre colonialismo e independentismo (promovendo os adaptáveis Tarao e Sbrindolin, sacrificando o mais genuíno Crânio). 

Apesar de leituras do livro mencionarem a influência de Joseph Conrad, Jack London ou Robert Louis Stevenson, a inspiração para esta história terá sido “A Lagoa Azuldo irlandês Henry De Vere Stacpoole (1908), com Caïn e Pandora no lugar de Dicky e Emmeline Lestrange (uma versão em filme lançou Brooke Shields). Só que Caïn cita Rimbaud e Stevenson, e é impossível não ver na personagem “Monge” uma versão do Kurtz de Conrad. Pratt era exímio a provocar com o óbvio e a trabalhar referências menos reconhecidas (daí também a admiração de Umberto Eco).


É certo que nem todas as aventuras de Corto Maltese atingem o mesmo nível. “A balada” e “Fábula de Veneza” estão numa ponta, “Mu” na outra. E onde situar o relato no Alaska e Yukon “Sob o sol da meia noite” (2015), a primeira “ressurreição” levada a cabo pelos espanhóis Juan Díaz Canales, e Rubén Pellejero? Uma história razoável que Pratt podia ter imaginado? Ou um falhanço que tenta um registo mais prattiano do que Pratt? A segunda. E isto porque se Pellejero é até uma escolha lógica, dado o seu estilo ser influenciado por Pratt (ver “Dieter Lumpen”, com Jorge Zentner), a aproximação mimética falha precisamente pela proximidade, em momentos-chave o estilo foge para o registo mais redondo, habitual no autor. Por outro lado, os problemas de erudição à solta sem valor narrativo que Canales já tinha evidenciado por vezes em “Blacksad” são aqui (sem o magnífico desenho de Juanjo Guarnido) muito evidentes. “Sob o sol da meia noite” pisca o olho ao cânone (Rasputine, Pandora, London), mas inclui demasiadas coisas: revoluções e causas perdidas, histórias de amor, loucura, heroísmo, exploração (de nativos inuit, de mulheres). Que fluem de forma forçada porque não há tempo para trabalhar bem nenhuma delas, e não surgem personagens que não pareçam caricaturas, apesar dos nomes históricos, que vão de Virginia Prentiss (a ama negra de Jack London) e Matthew Henson (o explorador negro do Ártico que acompanhou Robert Peary), ao boxeur Frank Slavin, ao explorador e baleeiro George Comer e sua companheira inuit Shoofly (e Pameolik, que “junta” Slütter e Crânio); acabando no homem da indústria do petróleo (e guerra) Joe Boyle, que simboliza o substituir da aventura pelo empreendedorismo. Há cópias tão boas (ou melhores) que os originais. Não é o caso. Felizmente a Arte de Autor teve a feliz ideia de proporcionar ambos.

A balada do mar salgado. Argumento e desenhos de Hugo Pratt. Arte de Autor. 183 pp., 26,95 Euros.
Sob o sol da meia noite. Argumento de Juan Díaz Canales desenhos de Rubén Pellejero. Arte de Autor. 82 pp., 18,65 Euros.







sábado, 2 de setembro de 2017

MULHERES


A maré impressionante de edições de qualidade nos mais variados géneros (com destaque para as coleções “Novelas Gráficas” Levoir/PÚBLICO) tem um efeito secundário muito bem-vindo: a possibilidade de surgirem apostas em obras menos óbvias. É o caso dos dois livros da dupla franco-dinamarquesa baseada em Estrasburgo e constituída pela argumentista Anne-Caroline Pandolfo e pelo desenhador Terkel Risbjerg, editadas pela GFloy. Muito diferentes em tom, estilo e natureza das protagonistas, em ambos se sente um olhar empenhado em torno de questões de género, um olhar do/no feminino.
“O astrágalo” adapta “L’astragale” (1965), romance da escritora francesa Albertine Sarrazin (1937-1967), cuja curta e agitada existência (de abandono, abuso, institucionalização, crime e prisão) deu origem a três obras semiautobiográficas, das quais esta é a mais conhecida. Já o recém-editado “A Leoa” é uma ambiciosa BD biográfica sobre a grande escritora dinamarquesa Karen Blixen (1885-1962). Em ambas há um claro interesse em mostrar a posição subalterna que as mulheres tiveram (têm) que transcender, e o modo com um universo masculino as tentou (tenta) controlar. É certo que as protagonistas não podiam ser mais diferentes: uma marginal de classe baixa sem grande educação formal, e uma burguesa nobre por casamento, a quem, apesar de tudo, foram dadas oportunidades. Mas a leitura conjunta mostra bem a posição dos autores, entendida do histórico ao contemporâneo: a opressão é a mesma, varia o grau e o modo como é exercida. No caso de “O astrágalo” o simbolismo de ser a fratura de um pequeno osso do pé (que dá o nome ao livro) a deixar Anne à mercê do mundo não deixa de ser sintomático.
Note-se que em ambas as obras o foco é, não bem o controlo, mas as estratégias para dele se libertar. Nomeadamente através da marginalidade, quer literal (“O astrágalo”), quer via a figura tutelar de um pai que não encaixava na sociedade dinamarquesa (e que acabaria por se suicidar), mais tarde através dos grandes espaços africanos e seus habitantes (“A Leoa”). Mas há outro ponto importante a unir estas histórias: os “fracassos” de Anne/Albertine enquanto ladra e de Karen enquanto agricultora em África talvez as tenham conduzido ao sucesso na escrita, embora se sublinhe que Blixen assinou a princípio com o pseudónimo masculino Isak Dinesen, e teve a honra duvidosa de ter tido os seus manuscritos rejeitados por todos os editores dinamarqueses, com o sucesso no seu país natal a ser posterior à sua “descoberta” no mundo anglo-saxónico. E, sobretudo em “A Leoa”, é notório o foco na vontade da protagonista em projetar a incompreensão que lhe era votada no sentido de compreender o Outro.

Para além deste posicionamento temático há ainda a relação texto/imagem. Desse ponto de vista não se pode dizer que o desenho de Terkel Risbjerg seja particularmente virtuoso ou inspirador, sobretudo no tratamento da figura humana. Mas o seu registo, num constante fugir da representação realista, tem uma qualidade efabulatória interessante, que complementa bem a escrita de Anne-Caroline Pandolfo. A qual, por sua vez, tende a ser muito pouco subtil, reforçando em permanência os motes e linhas de ação, como por exemplo no repetir dos simbolismos referenciais que rodeiam a vida de Blixen. É, pois, o desenho a ter o principal papel na criação de nuances, quer utilizando um traço decidido a preto e branco (com grandes manchas de negro) a caraterizar o ambiente que rodeia a protagonista em “O astrágalo”; quer as cores suaves em tom de aguarela a marcar o onírico, a fantasia e os grandes espaços em “A Leoa”. Nas obras desta dupla é de facto evidente uma das caraterísticas mais interessantes da banda desenhada, no sentido em que o todo é mais do que a soma das partes.


O astrágalo. GFloy, 224 pp., 14 Euros.
A Leoa: Um Retrato Gráfico de Karen Blixen. GFloy, 192 pp., 18 Euros.
Argumento de Anne-Caroline Pandolfo, desenhos de Terkel Risbjerg.



sábado, 5 de agosto de 2017

AUTORIA


Numa cultura obcecada com quem é quem e fez o quê quando, as questões de autoria são prementes, sobretudo quando se trata de algo visto como positivo. Em arte esse reconhecimento parece óbvio e necessário, fora exceções como Banksy, e deixando de lado criações coletivas. Pelo menos até nos lembrarmos que muitos trabalhos clássicos (da arquitetura, à poesia e textos místico-religiosos) são coletivos, com uma ligação a nomes (a existir) muitas vezes ténue, feita para nos “proteger” de ter de considerar obras fundadoras como anónimas, órfãs de autor. As histórias entrelaçadas que compõem “Nagual” (Quarto de Jade) jogam com esta ideia.

“Nagual” inspira-se nas pinturas murais de Teotihuacan, a grande cidade-estado multiétnica do México pré-colombiano, que teve grande pujança em meados do primeiro milénio, entrando posteriormente em declínio. Anterior à dominância dos Astecas, que lhe deram o nome pelo qual é conhecida hoje, era considerada por eles como o berço dos deuses, as suas imponentes pirâmides abandonadas uma fonte de mistérios já nessa altura. Utilizando um preto e branco de contraste vibrante e com poucas zonas de sombra (dadas pelo texto), nas seis narrativas que compõem “Nagual” assistimos aos vários passos da criação de um mundo, até desembocar nas criaturas que o tentam interpretar, com lendas e gravuras. Usando uma mescla hipnótica de formas geométricas e representações estilizadas de elementos mitológicos (serpentes emplumadas, jaguares, aves, árvores, coiotes, humanos) diretamente inspiradas na arte pré-colombianas, glosa-se o nascimento de céu, estrelas, montanhas, rios, canções, violências, medos. Que levam a reflexões clássicas, das tentativas de interpretar os mistérios da existência, à fúria quanto às suas limitações e inevitável fim. E com o conceito de nagual enquanto transmutação (física ou psicológica) de ser humano em animal pairando sobre cada ser que se introduz na narrativa. Como muitas vezes sucede em relatos que se querem fundadores, o texto tende a entusiasmar-se num excesso de simbolismo lírico que se pode tornar cansativo, apesar do vigor poético do desenho. Desse ponto de vista as últimas histórias, que introduzem claramente os humanos-intérpretes (“O Umbigo da Terra” e Zacuala”), são particularmente conseguidas; no sentido em que confrontam o concreto com as representações, e fazem melhor uso da ligação entre texto e imagem.

Uma questão não-acessória, e que liga à introdução do texto, é que em lado nenhum de “Nagual” aparece o nome do autor. Sugerindo uma criação coletiva anónima que espelha a realidade atual de Teotihuacan, cujo poder se esvaiu com o próprio (desconhecido) nome original, e cuja mitologia, como o nagual, pode dar origem a transmutações inesperadas (no frontispício do livro surge uma imagem da estilizada “lucha libre” mexicana...). Mas, tal como com os alter-egos de Tiago Manuel, a autoria é óbvia para quem segue o trabalho de Diniz Conefrey, e assumida no site da Quarto de Jade, editora que dinamiza com Maria João Worm. “Nagual” prolonga uma linha de exploração gráfica e conceptual que vem do notável “Livro dos dias” (também sobre o México pré-colombiano) mas também, num certo sentido, do abstrato “Meteorologias” (em que “anónima” era a temática). Mas quem encontrar o livro sem esse contexto (e/ou num futuro distante, quiçá pós-apocalíptico...) pode não ter acesso a esta informação. Encarará “Nagual” como hoje se admiram tapeçarias, cerâmicas, esculturas e pinturas nos mais variados contextos, cujas autorias se foram sumindo no tempo. Terá de construir em volta a sua própria mitologia.


Nagual. Argumento e desenhos de Diniz Conefrey. Quarto de Jade. 136 pp., 21 Euros.




sábado, 1 de julho de 2017

CÂNONES


A edição de banda desenhada tem vivido alguma pujança, marcada pelas constantes coleções com jornais, cuja regularidade aparentemente prova a existência de um mercado até há pouco insuspeito, e focado em diferentes tipos de estilos narrativos. Mas é preciso também (ou sobretudo) destacar trabalhos editoriais muito relevantes pela diferença que aportam. É o caso da Mmmmnnnrrrg/ChiliComCarne, e da sua aposta em autores como o finlandês Tommi Musturi, como na excelente edição de “Simplesmente Samuel”. Claro que se há coisa que esta editora procura não é, certamente, ser consensual; e muitos leitores abordarão o estilo caricatural/simbólico das coloridas BDs mudas de Musturi como uma perda de tempo, porque “não há história, não se passa nada”. E é pena.

Em “Simplesmente Samuel” de facto não existe bem um argumento, antes conceitos que definem os deambulares de uma estranha personagem desenhada de forma aparentemente inofensiva e infantil através de um universo feito de traços decididos e cores fortes, que contrastam com o surrealismo onírico. Mas as aparências iludem, e, de modo quase orgânico, para além de um tom de descoberta permanente, vão surgindo elementos estranhos, misteriosos, sexuais, escatológicos, violentos. Com o branco da personagem a assumir-se, não enquanto pureza ou inocência, mas como algo a ser contaminado pelas influências que encontra no caminho. A viagem de Samuel através das páginas transforma-se pois numa estranha meditação sem palavras, contada apenas em desenhos. Se os temas e soluções de Musturi evocam inapelavelmente o norte-americano Jim Woodring (n. 1952), e o seu “Frank” em particular, limitá-los a essa comparação é também injusto. No seu trabalho há ainda o recurso regular a elementos que evocam a história da banda desenhada e cinema de animação. Na verdade, a um certo ponto o branco de Samuel assume-se (via a presença de um sósia do cão Milu) como semelhante à inexpressividade de Tintin, corpo branco onde os leitores se podem projetar a si mesmos. Noutras situações a atividade construtora da personagem evoca Chris Ware.
Mas nos momentos mais interessantes de “Simplesmente Samuel” é mesmo a própria iconografia da BD que é questionada, como no “nascimento” da personagem, visto na perspetiva temporal inversa. Ou na forma como a relação espaço-tempo entre desenhos perde a lógica que faz parte das regras da BD, e onde se notam afinidades com o trabalho de Fred ou Marc-Antoine Mathieu. Ou ainda na plasticidade do cenário, que tanto pode submeter o protagonista, como submeter-se à sua vontade. Por último, e de modo ainda mais interessante, numa sequência que deveria ser ensurdecedora de acordo com os cânones da linguagem, mas na qual não se “vislumbra” um único ruído. Claro que se nota por vezes também um gosto de Musturi pela provocação, ou em desenhar cenários ou situações cuja justificação parece ser um estrondoso “porque sim”. Mas há inúmeras descobertas a fazer neste belo livro, onde se passa muita coisa. Só não se passa exatamente como noutras circunstâncias. 



Simplesmente Samuel. Conceitos e desenhos narrativos de Tommi Musturi. Mmmnnnrrrg. 160 pp., 20 Euros.




ESTÍMULOS


Na BD portuguesa, para além de autores com atividade tão regular quanto possível, têm igualmente lugar destacado “cometas”, vozes únicas que surgem, desaparecem, e regressam de forma imprevisível. Mas que, essencialmente, surpreendem. Uma delas pertence a Nunsky, e a sua mais recente proposta “Espero chegar em breve” (Mmmnnnrrrg) vale muito a pena. Já “Erzsébet” (Mmmnnnrrrg, 2014) tinha revelado um traço grosso com uso magnífico do negro, a lembrar Charles Burns, ao serviço de uma inesperada história de terror gótico protagonizada pela condessa húngara Erzsébet Báthory (1560-1614), uma assassina em série que procurava manter a juventude banhando-se no sangue de jovens raparigas. Neste caso a temática volta a tocar a fronteira entre estimulação e loucura, mas de uma perspetiva distinta.

Em “Espero chegar em breve” Nunsky adapta o conto “I hope I shall arrive soon”, publicado inicialmente como “Frozen Journey” na revista “Playboy” em 1980 por Philip K. Dick (1928-1982), um dos mais interessantes autores de ficção científica. Numa longa viagem intergaláctica um erro no sistema faz com que um passageiro, Victor Kemmings, acorde do sono criogénico que deveria durar toda a travessia. Paralisado, mas alerta, os dez anos de viagem que ainda faltam fazem com que Kemmings arrisque ficar louco, algo que o computador de bordo tenta evitar. A solução encontrada consiste em estimular a atividade cerebral do passageiro, fazendo com que se distraia com sonhos elaborados, construídos a partir de memórias da sua vida na Terra. Para garantir uma maior estabilidade emocional o computador utiliza tempos felizes, sugeridos pelo próprio Kemmings, que começa deste modo a (re)viver de forma artificial o passado.
Só que nunca se consegue revisitar a memória sem a contaminar, e, por mais que o computador tente, o cérebro de Kemmings apercebe-se das mentiras que lhe estão a querer contar, e recusa-as. No entanto, o computador não está programado para desistir e escolhe uma fuga para a frente, procurando produzir memórias que projetem o futuro, com a eventual chegada de Kemmings ao seu destino, construindo uma nova vida num planeta distante. A questão é que, por muito que trabalhe a lógica, não é possível ao computador levar em linha de conta as culpas e neuroses que jazem no fundo da alma humana, ou o modo retorcido como se integram num dia a dia que está a um erro do sistema de se tornar completamente disfuncional. Confrontado com simulações, Kemmings deixa de ser capaz de reconhecer a realidade, ou acreditar que ela possa existir, mesmo quando a normalidade parece regressar. As mentiras bem-intencionadas foram tantas que a verdade perdeu o valor absoluto. Não é que o conto de Dick tenha particular atualidade hoje, é que este é um tema que nunca perdeu atualidade, mas que o autor norte-americano formulou como muito poucos, a coberto da ficção-científica. E que Nunsky trabalha de forma brilhante, com o traço grosso e o uso do negro a iluminarem com as suas qualidades opressivas.

Apesar de mais linear do ponto de vista narrativo, “Erzsébet” tinha algo que “Espero chegar em breve” não tem. Espaço. Com mais cem páginas, a espiral de loucura da condessa Báthory desenhava-se de forma metódica, com um uso excelente de páginas mudas. Um luxo agora ausente, havendo um acumular de texto e algumas questões na legendagem; que, apesar da excelente ideia de letras em branco sobre fundo negro, é por vezes menos legível (sobretudo nas falas do computador). Mas esta é uma questão menor numa obra onde o questionar das fronteiras da consciência levanta mais uma discussão sobre o que é, na realidade, a realidade.


Espero chegar em breve. Argumento e desenhos de Nunsky (adaptando Philip K. Dick). Mmmnnnrrrg. 42 pp., 10 Euros.



FRONTEIRAS


Quando certos debates então na ordem do dia, muitas vezes há a tentação de considerar tudo quanto possa estar relacionado como tendo surgido como reação. Mas o oscarizado “Moonlight” fala de uma dupla ostracização (ser homossexual na comunidade negra norte-americana) muito anterior a 2017. Já a banda desenhada Rendez-vous em Phoenix” de Tony Sandoval (Kingpin Books) evoca a emigração ilegal para os EUA através da fronteira mexicana, matéria com longo historial em termos de representação. Mas, apesar da data em que foram concebidos, o momento em que são apreciados cola-se, inevitavelmente à “era-Trump”, no caso concreto do trabalho de Sandoval à tentativa por parte dos EUA de fechar (simbolicamente ou menos) fronteiras.

Fugindo dos registos anteriores do autor em termos temáticos, mas mantendo o traço semi-caricatural, Rendez-vous em Phoenix” é um relato autobiográfico da passagem do autor para os EUA, em busca de um futuro melhor. Só que esta é uma história distante das habituais, patentes em filmes como “Sin Nombre” (Cary Joji Fukunaga, 2009), ou o recente, e algo esquemático, “Desierto” (Jonás Cuarón, 2015). Desde logo é imediata a perceção de que Tony Sandoval não é o imigrante ilegal mexicano típico. A sua situação pessoal não é a mesma da maioria dos migrantes, e, para além de ter uma namorada norte-americana à sua espera (em Phoenix, no Arizona), a tentativa de passar a fronteira relaciona-se mais com alguma inconsciência juvenil e pressa em retornar aos EUA, que já visitara (legalmente), de modo a assumir o sonho de desenhar “comics” de super-heróis, do que com necessidade. Se é interessante ver representado percurso menos habitual, a distância é visível no modo como a história se desenrola, sobretudo na relação com os outros companheiros de aventura, com os quais se estabelece uma distância narrativa que a custo se transcende. Mas sobretudo o que transparece é mais inconveniência e repetição do que propriamente perigo, como se o autor vivesse uma versão mais radical de umas férias em percursos naturais pelo deserto; uma sensação que o traço de Sandoval não consegue ajudar a resolver, apesar da cor, sobretudo a luminosidade opressiva do branco, ser muito boa a definir o ambiente. 

O final do livro, o reencontro numa cidade cujo nome sugere novas oportunidades, não dá grandes indicações sobre o futuro a médio prazo (nem tinha de dar), mas não deixa de ser algo irónico que, apesar do sonho americano, Tony Sandoval esteja a fazer carreira sobretudo na BD francófona, nomeadamente na editora Paquet. Na verdade, “Rendez-vous em Phoenix” é um livro mais interessante que os algo pueris, mas profissionalmente consistentes, e premiados, registos de fantasia do mesmo autor (“As Serpentes de Água”, “Mil Tormentas”, também editados em Portugal pela Kingpin). Mas, e sem por em causa a honestidade do projeto, este livro parece sobrevalorizado pelo facto de Sandoval estar a fazer algo distinto daquilo a que habituou os leitores, num tema “sério” de relevo, mas sem grande profundidade. E com um estilo gráfico que lhe dá uma “leveza” que certamente não era o objetivo. O registo autobiográfico ou o glosar de um tema candente não são garantes automáticos de autenticidade ou qualidade, que por vezes se concede nestes casos, como se fosse um dado adquirido.

Rendez-vous em Phoenix. Argumento e desenhos de Tony Sandoval. Kingpin Books. 80 pp., 13 Euros.



DOR



Classificar o trabalho de António Jorge Gonçalves como “inclassificável” é uma opção possível, mas fácil. Em banda desenhada, ilustração, cartoon, cenografia ou performance há sempre uma componente temporal, um movimento que sugere percursos, não necessariamente uma narrativa. É certo que obras iniciais como “As aventuras de Filipe Seems” (argumentos de Nuno Artur Silva) tinham uma matriz de BD franco-belga afiliada à retoma contemporânea da “linha clara”, que se foi desvanecendo (em termos de história e estilo) no último volume da trilogia, nas colaborações com Rui Zink (“A arte suprema”, “Rei”), e em trabalhos a solo, como “O Sr. Abílio”, “Subway Life”, ou o mais recente “A minha casa não tem dentro” (abysmo).

Resultado indireto de um problema de saúde grave do qual o autor recuperou, mas que implicou uma intervenção cirúrgica complexa e uma convalescença longa, é importante dizer desde logo que, apesar de toda a atenção que (muito justamente) foi dada a este notável livro e à história da sua génese, “A minha casa não tem dentro” merece ser encarado de um modo “neutral”, no sentido em que o trabalho de António Jorge Gonçalves tem um poder evocativo, entre a maravilha e o medo, que transcende qualquer contextualização. Até porque, e apesar da tonalidade que este adjetivo em particular sempre carrega consigo, esta é uma obra acessível, certamente mais do que outros livros do autor, incluindo colaborações com argumentistas. Pode não o parecer a uma primeira vista/leitura, mas as palavras e imagens constroem, não bem uma narrativa, mas um conjunto evolutivo de momentos ou estados de espírito, sendo de destacar o uso de cor e sombra.
O livro não mistura palavras e desenhos, umas e outros fazem o seu caminho, com as palavras (obedientemente em quadradinhos) a resumirem memórias de diferentes instantes, e a balizarem conjuntos temáticos de imagens mudas de traço grosso, onde a cor promove acentos de azul e vermelho, a princípio separados, mais tarde juntos ou fundidos. O simbolismo é aqui para quem o quiser apanhar; e, depois de uma capa que não o parece, o próprio autor faz um aviso eloquente logo no início: cada leitor interpreta por sua conta e risco. Entre representações de caos organizado sobressaem alterações de escala, personagens sem rosto, e uma menina protagonista (?) que deambula num cenário feito de formas geométricas, pormenores de habitações mutadas, cenas mitológicas ou espetáculos circenses. A menina exerce apenas uma natural curiosidade, ou está à beira de se perder em perigos insuspeitos? As mãos que tudo apontam querem proteger ou esmagar? As multidões sem rosto representam um comentário irónico às típicas fotografias de família espalhadas pela casa, ou são um sinal de desagregação e perda de memória? António Jorge Gonçalves escolhe aspetos do familiar, e distorce-os numa visão febril onde se sentem evocações de isolamento, medo, dor, esperança. No final compreensivelmente otimista de “A minha casa não tem dentro” as figuras humanas surgem com caras concretas, as portas abrem-se para um branco que esperamos seja luz. (Sobre)vive-se, vence-se a dor, passa-se outro limiar.
Como, noutro registo, Diniz Conefrey, António Jorge Gonçalves parte de uma matriz com elementos e convenções da banda desenhada, adaptando-os a um ritmo que é apenas seu. Convidando cada leitor a fazer o mesmo. Sem pedir explicações, nem oferecer as suas em troca.



A minha casa não tem dentro. Desenhos e texto de António Jorge Gonçalves. abysmo. 150 pp., 20 Euros.



terça-feira, 7 de março de 2017

TEMPESTADES


Surpreender com familiaridade pode parecer um paradoxo, mas tem feito parte da essência do trabalho em banda desenhada de Diniz Conefrey. De Herberto Hélder (“Arquipélagos”/“Os labirintos da água”), ao México pré-colombiano (“O livro dos dias”), à BD abstrata (“Meteorologias”), a busca de formas e ritmos é contínua, criando ambientes hipnóticos compostos de cores, traços, texturas, palavras. O seu mais recente livro “Judea” (Pianola) adapta a novela “Youth”/“Mocidade”, de Joseph Conrad (1898), narrada pelo alter-ego putativo do escritor Charles Marlow, o mesmo de “Lord Jim” ou “Heart of Darkness”. E, se à primeira vista o livro surpreende pela aparente demarcação de um trilho criativo recente, a distância percorrida é curta; com “Judea” o autor ensaia alternativas que a princípio parecem mistas e de compromisso, mas que coalescem de modo inesperado numa nova síntese.

Tal como noutras obras de Conrad (e de Conefrey) “Judea” é um relato iniciático de viagem, apresentado enquanto memória de um Navio (ou de um marinheiro?) que perdeu as graças do mar (ou para quem o mar perdeu a graça). A história-base é falsamente simples: o velho veleiro enferrujado “Judea”, uma rota acidentada de Inglaterra ao Índico, uma carga de carvão no porão. Como se não bastassem os habituais riscos de uma longa aventura marítima (vento, calmaria, o mar revolto), esta viagem em particular parece amaldiçoada desde início, e, num culminar de adversidades, a carga entra em combustão espontânea. Sem que nenhuma estratégia consiga apagar o fogo, apesar de todos os esforços obstinados (quase românticos) para salvar um navio que se tenta transcender, a viagem torna-se um longo arrastar rumo a um fim inexorável, com a tripulação a tentar agarrar-se à vida pairando sobre uma bomba-relógio que a pode surpreender a qualquer momento. Se algumas personagens humanas adquirem voz própria, o principal protagonista é o próprio malogrado navio, cuja essência para os marinheiros oscila entre a única salvaguarda da fúria do mar, e o risco de destruição iminente que trás no seu âmago; com o céu, o oceano, e mesmo a terra firme e outros navios a evitarem conceder um porto seguro. É esta dualidade segurança/morte (e concreto/abstrato) que Diniz Conefrey trabalha, utilizando de modo soberbo o preto e branco, onde o desenho consegue a proeza de evocar cores (o vermelho do fogo, o azul do mar), que só as palavras do argumento têm o direito de expressar.

Considerando a evolução do olhar criativo é iluminador ver como o interesse na BD abstrata, visível no anterior “Meteorologias” (Quarto de Jade), é integrado em “Judea”, numa mescla de convoluções de penhascos, vagas, nuvens e fumo, que chegam a ocupar páginas inteiras com uma ferocidade insuspeita, e um estranho cunho de intemporalidade que toca todos os elementos. As diversas tempestades, sejam naturais (o mar, o vento, a costa), sejam artificiais (o fogo), sejam os humores da tripulação, são integradas numa só, com o contraste entre o traço preciso de personagens e motivos náuticos, e a força telúrica dos elementos mais abstratos a evocar um poder tanto mais violento quanto o texto o parece negar. Se a opção narrativa reconhecível é profundamente enriquecida pela abstração, esta, por sua vez, e usando o pretexto de ser mar/céu/fogo/fumo, poderia parecer oca sem a âncora que as madeiras podres e a angústia dos marinheiros lhe concedem. Desse ponto de vista “Judea” demonstra de que modo uma estrutura narrativa “clássica” pode ser útil enquanto uma espécie de base criativa reconhecível que “fixa” a leitura, permitindo, em simultâneo, a introdução de outro tipo de elementos disruptivos. A familiaridade é uma excelente ferramenta para desarmar espectativas, e permitir a construção de algo novo com o leitor, sem que ele disso se aperceba.

Judea. Argumento e desenhos de Diniz Conefrey (adaptando “Youth”/“Mocidade”  de Joseph Conrad). Pianola Editores. 84 pp., 16 Euros.




domingo, 5 de março de 2017

JUSTIFICAÇÕES


Quando tudo parece correr bem é difícil questionar o estado das coisas. Em contraposição, e considerando o mundo nos últimos anos, não deixa de ser natural que se privilegie hoje a reflexão sobre instituições e ideias que deveriam funcionar muito bem no papel, mas que já não parecem capazes de responder a novos desafios. Ou deveremos mesmo duvidar do papel em que foram inicialmente escritas?

O muito interessante “Democracia: Uma história sobre a coragem de mudar o mundo” (Bertrand) procura contextualizar o estabelecimento do modelo democrático inicial em Atenas, não só em termos das suas limitações, mas do modo como se relaciona com uma visão contemporânea das relações de poder e de quem o exerce, dois mil e quinhentos anos depois.  A aposta editorial está certamente ligada ao sucesso do livro anterior da mesma equipa gráfica, “Logicomix”, sobre a obra científica e filosófica de Bertrand Russell, mas se nesse livro o papel dos argumentistas Apostolos Dioxiadis e Christos Papadimitriou era decisivo, “Democracia” é um projeto pessoal do desenhador grego Alecos Papadatos, concebido com o argumentista Abraham Kawa. A história foca-se nas tribulações de um jovem ateniense, que conta as suas aventuras aos companheiros de armas antes da famosa batalha contra os persas em Maratona, com histórias dentro de histórias em que deuses, lenda e realidade se confundem. Graças a esses mecanismos narrativos percorre-se a história, política e governação da cidade de Atenas, quem exerce o poder, de que modo o exerce, e que outras alternativas se poderiam propor. Mas alternativas para quê, exatamente? De modo a garantir maior representatividade? Dar voz a quem não a tem? Apenas para assegurar pragmaticamente um governo onde as pessoas (as que tinham esse direito em Atenas, sublinhe-se) se sentissem ouvidas, mesmo que na verdade apenas fossem habilmente instrumentalizadas?
A ambição de tentar referir demasiados assuntos (por vezes com pormenores que levam muito tempo a enquadrar), fazem com que o resultado possa ser algo pesado, com um equilíbrio tenso entre História e estória. Ou seja: sente-se alguma dificuldade em criar situações e personagens que “cumpram” as funções expositivas que os autores delinearam sem isso parecer forçado. Mas é louvável o modo como se procuram evitar finais felizes artificiais e estereótipos, embora nem sempre seja possível, mormente do ponto de vista gráfico. Sobretudo é inevitável ler “Democracia” à luz contemporânea, e essa era uma intenção clara dos autores. As manobras políticas descritas ao longo do livro podem girar em torno das alterações para o primeiro modelo dito democrático em Atenas, mas é evidente que a democracia e o carisma heroico de uns podem ser o elitismo e a tirania de outros, e os fins acabam quase sempre por justificar os meios. 

Na verdade, as justificações de deuses e humanos sucedem-se em “Democracia”, mas não deixam de vincar que o poder é, simplesmente, aquilo que sempre foi: poder. Gerido com força, dinheiro, retórica. Nesse sentido é interessante ver os espartanos enquanto força militar ocupante, a arte clássica grega (vasos, estátuas, templos) enquanto veículo de propaganda; e sobretudo o Oráculo de Delfos enquanto Agência de Rating, ou uma qualquer entidade reguladora, tanto mais perigosa quanto é descaradamente manipulável sem o parecer. Também, como sempre, a manipulação tem intenções, e não é certo que as “boas” sejam necessariamente melhores do que as “más”. Embora o livro termine com uma mensagem de confiança, o caminho narrativo trilhado vai um pouco ao arrepio do subtítulo da obra, no sentido em que o mundo não pareceu mudar assim tanto, a vigilância tem de ser permanente, e todos os erros e atropelos podem ser justificados com boa fé, a pior fé de todas. Limitarmo-nos a repetir Churchill e defender que a Democracia é o pior sistema de governo à exceção de todos os outros é, hoje, uma escapatória curta.


Democracia: Uma história sobre a coragem de mudar o mundo. Conceito de Alecos Papadatos, história de Alecos Papadatos e Abraham Kawa, argumento de Abraham Kawa, desenhos de Alecos Papadatos com cores de Annie di Donna. Bertrand Editora. 240 pp., 19 Euros.