sexta-feira, 14 de outubro de 2016

CÁTEDRA

Catedrático de literatura francesa na Universidade do País Basco, estudioso de banda desenhada e argumentista premiado, Antonio Altarriba é uma das mais interessantes figuras da BD espanhola, destacando-se as obras dedicadas aos seus pais, “A arte de voar” sobre histórias do pai na Guerra Civil Espanhola, editada na primeira coleção de Romances Gráficos Levoir/Público, e “A asa quebrada”, sobre as vicissitudes na vida de sua mãe só conhecidas após a sua morte, que sairá na segunda coleção. Se estes dois livros (ambos com desenhos de Kim, num tom realista “neutro”) surgem como homenagens biográficas sobre as quais se reflete a História de Espanha, “Eu, assassino” (Arte de Autor) é um pouco diferente, embora comungue da mesma matriz-base.
Desde logo conta com um desenho bastante mais duro de Keko, e o uso dramático de vermelho (talvez até excessivo) num preto e branco contrastado que segue uma linha gráfica que vem de Milton Caniff, Alberto Breccia e Frank Miller. Mas sobretudo o protagonista é Professor (de Arte) na Universidade do País Basco, e muito semelhante do ponto de vista físico ao próprio Altarriba. Uma parte importante da história implica pois a realidade política do País Basco, por um lado, e a dinâmica do meio académico em geral, por outro, embora seja suficientemente arguta para que esses elementos surjam mesclados com o relato na primeira pessoa do protagonista.

Citando ao início Sade, e na introdução “O Mandarim” de Eça de Queirós, a reflexão de Altarriba imbrica nos diferentes modos e perspetivas de considerar a morte (individual, coletiva, simbólica, “útil”, libertária, criadora de mitos, terrorista) e as suas consequências, de como podemos acabar por ficar indiferentes perante a sua ubiquidade quotidiana, e quais os mecanismos possíveis para o evitar. Com a particularidade de esta reflexão ser conduzida por um assassino em série cujo objetivo na vida é, para além de não ser apanhado, tratar a morte como uma das Belas Artes, cada assassinato enquanto performance/instalação inovadora. Faz diferença o discurso interessante e articulado do protagonista ser, em simultâneo, o de um psicopata assassino que, no fundo, apenas se preocupa com a sua carreira (fama, mulheres), negligenciando muito do que o rodeia (incluindo relações, previsíveis, com uma aluna e a sua quase ex-mulher)?
Para além de eventualmente sublimar alguns eventos pessoais (como sucedeu em obras anteriores) é neste paradoxo que reside o interesse maior de “Eu, assassino”, e a inteligência da obra é patente, não só na construção de argumento, mas no desenho contrastado de Keko, que sugere haver uma dualidade que, na verdade, se esfuma. De facto, e caricaturando o que acontece frequentemente na Academia, o psicopata criativo, original e rebelde que protagoniza o livro acabará, não necessariamente castigado do modo “clássico”, mas menorizado por psicopatas copiadores cinzentos, que trabalham melhor dentro do sistema. A única solução é procurar uma outra abordagem inovadora, que lhe permita continuar a sua carreira dupla, académica e criminal, já que, em última análise, tornaram-se indissociáveis. Na verdade, troque-se a palavra “psicopata” por “especialista” e estaríamos em presença de um retrato reconhecível do meio académico. Desse ponto de vista, apesar de alguns desequilíbrios, “Eu, assassino” é uma notável obra em forma de tese, que perturba até pelo contexto inesperado em que integra os diversos clichés que assume.
Esta edição prova ainda que, apesar da dinâmica editorial corrente, há um nicho para pequenas editoras explorarem a muita qualidade presente em diversos mercados, e em relação aos quais a realidade portuguesa perde sempre. Depois de “Caravaggio” de Manara, a Arte de Autor volta a marcar pontos com esta excelente edição.

Eu, assassino. Argumento de Antonio Altarriba, desenhos de Keko. Arte de Autor. 136 pp., 20 Euros.


sexta-feira, 26 de agosto de 2016

VIGILÂNCIA


A dinâmica editorial recente tem obliterado a memória de um tempo onde tudo parecia muito difícil. De tal modo que nem sempre se consegue dar a atenção devida a lançamentos, marcados também por circunstâncias especiais. Por exemplo, “V for Vendetta”, obra escrita pelo notável argumentista inglês Alan Moore e incluída na coleção Novelas Gráficas 2 (Levoir), gerou redobrado interesse pela presença do desenhador David Lloyd, e pelo facto de a máscara de Guy Fawkes usada pelo protagonista ter sido apropriada pelo grupo Anonymous. No entanto, esta boa fábula distópica (publicada entre 1982-85) é relativamente linear, e está a anos-luz da construção minuciosa de “Watchmen”, a obra referencial ao nível de super-heróis escrita por Moore e desenhada por Dave Gibbons, que a Levoir lançou numa excelente edição. Desde logo: é o livro que quem diz detestar super-heróis tem de ler, para pelo menos os detestar com critério. Porque é óbvio que os próprios autores desconfiam de um género cujo interesse no mercado anglófono tem muito a ver com popularidade.


Publicado originalmente como uma mini série de 12 números em 1986-87 é difícil explicar hoje a importância de “Watchmen” a um público habituado aos inúmeros filhos bastardos, que aplicam uma versão aguada das suas “receitas” (porque é um pouco disso que se trata) a heróis muito mais conhecidos. Porque quase tudo de interessante que se lê e vê hoje com estas personagens tem raízes em “Watchmen” e, noutro contexto, “The Dark Knight Returns” de Frank Miller (também de 1986). Por outro lado, é provável que a história não tivesse sido possível se não utilizasse personagens obscuras, que a DC Comics adquiriu à Charlton Comics, e que Moore teve total liberdade para desconstruir/reconstruir, mantendo, apesar disso, “tipos” nos quais se reconhecem outros heróis: o justiceiro solitário perturbado Rorschach (Question, Batman), o soldado/agente secreto Comedian (Nick Fury, Captain America), o herói com poderes cósmicos Dr. Manhattan (Silver Surfer, Superman), os heróis de base tecnológica Nite Owl e Ozymandias (Iron Man, Batman), a super-heroína que navega o sexismo omnipresente Silk Spectre (Wonder Woman, Black Canary).
Para além de homenagens a inúmeros autores e às diferentes épocas de histórias de super-heróis, que pouco dirão a leitores contemporâneos, o fulcro de “Watchmen” é simples: como é que se poderia, realisticamente, equacionar a presença de vigilantes mascarados com superpoderes na sociedade? Como seria o seu quotidiano? Que reações despoletariam na população? Quais seriam os seus objetivos e linhas de ação? Como poderiam ser (ou não) controlados pelo poder político? De que modo se enquadrariam na História e se renovariam, desde o seu aparecimento nas décadas de 1930, aos anos 1980? As respostas a que Moore chega, não só a partir da história em si, mas dos suplementos a cada capítulo que ajudam a contextualizar a ação, assentam numa abordagem feroz, social, económica e política. Para além de pormenores esclarecedores, como a instrumentalização de tais personagens ter alterado acontecimentos, permitindo uma vitória dos EUA no Vietname (e a Nixon evitar Watergate), o elemento perturbador resulta da criação de uma espécie de “realpolitik” de licra, que obviamente nada deve ao heroísmo ou ao patriotismo, e que leva a história para uma ultra distopia, no sentido em que é construída com a melhor das intenções, como quase tudo o que é verdadeiramente péssimo.

A planificação repetitiva (geralmente nove vinhetas iguais em filas de três por página), ligada ao desenho elegante, rígido e nada espetacular de Gibbons acaba por ser o veículo gráfico ideal para o texto e conceitos de Moore, no sentido em que ilumina sem distrair. A banda desenhada é feita de equilíbrios, e em “Watchmen” o grafismo “conservador” esconde o alcance de um livro extraordinário para quem estiver disponível, utilizando o título da biografia do primeiro Nite Owl, a espeitar debaixo da máscara.

Watchmen. Argumento de Alan Moore, desenhos de Dave Gibbons. Levoir. 432 pp., 39,90 Euros.

GÉNERO



Em termos editoriais a banda desenhada nunca viveu um período tão interessante, com expansão (em número e qualidade) de autores nacionais, mas sobretudo com o trabalho da Levoir e G. Floy Studio em termos de obras de autores estrangeiros, oferecendo uma excelente relação qualidade/preço. Não que todas sejam excelentes, mas ajudam a criar um fundo de qualidade elevada, a partir do qual a excelência é mais fácil de reconhecer, e tem outro valor. 




Apesar de não apreciar o anglicismo das questões de “género”, uma linha interessante relaciona-se com séries protagonizadas por mulheres, escritas e desenhadas por homens, editadas pela G. Floy Studio. Obras que procuram, não só contar histórias convincentes, mas surpreender com misturas de referências que podem não ser óbvias, e que enriquecem (ou baralham) o rumo e ritmo narrativo, e as expetativas do leitor. É nesse ponto que o sexo (género) das protagonistas é (também) relevante, embora utilizado de maneiras distintas. “Fatale”, série escrita por Ed Brubaker com desenhos de Sean Philips (concluída no 5º volume), “contamina” o policial negro clássico dos anos 1950 (num ambiente muito bem recriado por Philips) com um fundo sobrenatural, centrado numa mulher que evoca poderes demoníacos e trás desgraça aos homens que por ela se fascinam. Ou seja, embora seja tipificadora do ponto de vista do género, Brubaker trabalha o conceito de “mulher fatal” com uma literalidade inovadora. Já em “Velvet” a referência são os agentes secretos dos anos 1970, com o estilo de intriga internacional em ambientes luxuosos a ser, mais uma vez, muito bem captado pelo desenho de Steve Epting. Se se sente a sombra de Sean Connery em “007” (embora a história deva mais a John Le Carré), o facto de a protagonista ser uma agente que é obrigada a sair da “reforma” atrás de uma secretária, para onde um passado menos claro (e, sem dúvida, o seu género) a tinham atirado, funciona como elemento disruptivo em termos do modo como Velvet é encarada pelos seus colegas/adversários, e como se supera num mundo masculino; como um pormenor irritante que não se deixa ignorar.

Mas a série que vale mesmo a pena conhecer neste contexto é “Jessica Jones/Alias”, concebida pelo argumentista Brian Michael Bendis. Aqui a referência são os super-heróis, sendo a protagonista um membro reformado dessa confraria, com uma história conturbada, que agora ganha (mal) a vida enquanto detetive privado, evitando dar nas vistas e utilizar os seus poderes. No fundo trata-se de tentar abordar a existência de super-heróis de uma forma “realista” na sociedade, na sequência dos notáveis “Watchmen” de Alan Moore e Dave Gibbons ou “Astro Ciity”” de Kurt Busiek e Brent Anderson, mas num ambiente menos grandioso ou mitificador. Ao contrário de outra boa série de Bendis com contornos similares (“Powers”), as referências aos universos de heróis de licra são secundárias e exigem que o leitor construa sobre elas (como na história sobre a vida pessoal secreta do Capitão América, por exemplo). Em “Alias” as histórias policiais cruzam-se com o questionar do mundo dos super-heróis, e do papel das mulheres nesse mundo. São, mais uma vez, um elemento perturbador, um grão de areia que tanto pode desaparecer no cenário, como ocupá-lo momentaneamente, mudando as coordenadas. Há ainda um elemento forte de relações falhadas e abusivas (fulcro da série televisiva homónima), nada habituais neste tipo de obra. O desenho de Michael Gaydos privilegia a tom soturno e os argumentos sempre palavrosos (no bom sentido) de Bendis, mas sobretudo alerta para o facto de “Alias”, caminhando numa fronteira entre géneros e preocupando-se com personagens que recusam ser tipificadas, nunca ser bem o que parece ser.

Jessica Jones: Alias 1. Argumento de Brian Michael Bendis, desenhos de Michael Gaydos. G. Floy Studio. 216 pp., 15 Euros.
Velvet 1: Antes do Crepúsculo. Argumento de Ed Brubaker, desenhos de Steve Epting. G. Floy Studio. 128 pp., 10 Euros.
Fatale. Argumento de Ed Brubaker, desenhos de Sean Philips. G. Floy Studio. 128 pp., 10 Euros.

COIMBRA


A cidade de Coimbra existe num estado de bipolaridade permanente. Os 726 anos da Universidade e a classificação da Alta enquanto Património Mundial pela UNESCO em 2013 tanto podem servir como referência de uma construção em permanência, como enquanto lembrete de algo estagnado que um dia foi grandioso, mas que agora não tem outra atividade possível senão lembrar-se melancolicamente disso mesmo, vivendo de História e turismo. No fundo, uma espécie de Portugal simbólico dentro de Portugal, que, convenientemente, até tem o Portugal dos Pequenitos. De facto, as referências a Coimbra enquanto uma espécie de bode expiatório do supostamente lusitano medo de existir depois de se ter existido são comuns; dá sempre jeito haver algo em que possamos verter as nossas inseguranças sem grandes riscos ou justificações, de modo a vincar a ideia de empreendedorismo cosmopolita que nos interessa, por mais pindérica que seja. É inegável que Coimbra se presta a isto, e a grande luta que tem de travar é a de trabalhar sem deixar de celebrar, construindo respeitosamente por cima dos 726 anos da Universidade, como se fossem apenas ontem. 


Curiosamente, ou talvez não, o potencial reformador de um percurso de recriação e reapropriação é por vezes revelado com particular sensibilidade por obra do acaso, aos olhos de um total desconhecido. É o que sucede com “O Segredo de Coimbra”, a primeira obra em banda desenhada do autor belga Étienne Schréder, hoje mais conhecido por participar em vários “Blake & Mortimer” pós-Jacobs. O pretexto foram os instrumentos do Gabinete de Física, criado na Universidade após a Reforma Pombalina de 1772, e hoje parte do Museu da Ciência. Com o propósito de educar com rigor, mas também com um pendor lúdico e artístico, a coleção é notável, e esteve na base da exposição “Os Mecanismos do Génio” realizada no âmbito da Europália de 1991, em Charleroi, Bélgica (mais tarde também patente na Gulbenkian). Explicar o funcionamento dos instrumentos em três línguas (flamengo, francês,  inglês) pareceu ao comissário Laurent Busine muito pesado, decidindo-se por isso a utilizar a linguagem da BD para esse efeito, recorrendo a sequências “mudas”; e Étienne Schréder chegou a Coimbra com o propósito de fazer os esboços necessários. Mas os instrumentos impuseram, também, uma história, publicada originalmente em 1994. Em “O Segredo de Coimbra” um jovem príncipe é educado para a governação de um reino magnífico, que apenas antevê das janelas do seu palácio. Rodeado por instrumentos e livros tem grandiosos sonhos de modernização, alimentados pelo rigor da ciência. Mas a ciência tanto revela e liberta, como pode ser utilizada para aprisionar e iludir; a grandeza de um reino pode, na verdade, ser pouco mais do que uma ilusão de ótica, uma anamorfose apenas visível quando espelhada numa superfície com uma dada forma, um simulacro que só parece imponente quando visto de um determinado ângulo, uma obra inacabada que ninguém sabe ou pode concluir. Apesar de nada conhecer de Portugal, com o seu desenho clássico e linear, no qual se impõem os instrumentos e a arquitetura de Coimbra, Schréder captura uma essência reconhecível, oculta numa história simples de redenção; de um reino e do seu príncipe.

A excelente reedição da obra em português, francês e inglês (uma estreia) por parte da Universidade em parceria com a editora G.Floy, com o acrescento de uma história curta inédita em livro e que liga o século XVIII à década de 1950, lembra que deve ser possível utilizar o património de uma forma aberta e construtiva; não apenas enquanto o fardo que não queremos carregar, mas que também nunca poderemos pousar.

O Segredo de Coimbra. Argumento e desenhos de Étienne Schréder. G.Floy Studio/Universidade de Coimbra. 68 pp., 12,5 Euros.


segunda-feira, 30 de maio de 2016

MAINSTREAM.PT


“Como fazer uma banda desenhada sem saber bem como...” foi o título de um workshop de 2014 com Filipe Melo, um autor surpreendente no contexto nacional. Se é ridículo falar-se num “mainstream” da BD portuguesa, entendido enquanto a produção regular de obras inteligentes, eficazes, assumidamente (também) de entretenimento despretensioso, dirigidas ao (e aceites pelo) “grande público” (que não há), é só porque o “mainstream” aqui é Filipe Melo, ponto.
Com uma formação musical que passou pelo Hot Clube e pela Berklee School de Boston, Melo chamaria a atenção com a concepção do filme curto de terror “I’ll see you in my dreams” (2003; realização do espanhol Miguel Ángel Vivas), e usaria depois vídeos para promover aquela que se tornou a série-fenómeno da BD nacional, já disponível em vários países. A trilogia (inicial?) é composta por “As Incríveis Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy” (2010), “As Extraordinárias Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy II: Apocalipse” (2011) e “As Fantásticas Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy III: Requiem” (2013), acrescentando-se ainda “Os Contos Inéditos de Dog Mendonça e Pizzaboy” (2016), que reúne histórias curtas de apresentação das personagens realizadas para a editora Dark Horse Comics, aquando da edição em inglês.
Melo parece comungar do credo de Frank Miller: comparada com o cinema em BD é muito mais fácil (e barato) fazer grandes produções com extraordinários efeitos especiais. São precisas duas coisas: ideias e colaboradores. A filiação de Melo no cinema fantástico (ou em BDs como “Hellboy” de Mike Mignola e “Dylan Dog” de Tiziano Sclavi) já era evidente, e confirma-se nos cineastas que assinam os prefácios dos livros (um excelente toque promocional): George A. Romero, John Landis, Tobe Hooper, Lloyd Kaufman. Mas se os temas da coexistência conspirativa (nunca pacífica, ou não haveria história) de criaturas sobrenaturais num mundo “real” estão longe de ser novos, Melo consegue, não só manter um ritmo elevado e um humor corrosivo, como criar soluções originais a partir da realidade portuguesa (várias personalidades e locais, ou as aparições de Fátima, por exemplo) que dão um timbre muito próprio a situações e personagens, do Lobisomem torturado e ácido, natural de Tondela, João Vicente Mendonça, ao permanentemente atónito Eurico Catatau que só vinha entregar pizas e tem agora de lidar com coisas como uma gárgula sem corpo, ou Pazuul, um demónio tão mudo e inexpressivo quanto eficaz, preso no corpo de uma adolescente fumadora. Por outro lado, o desenho entre o realista e caricatural do argentino Juan Cavia (com cores do seu compatriota Santiago Villa) controla muito bem o tom variável da narrativa, do abismo-espetáculo ao absurdo non-sense. No fundo, o maior mérito de Filipe Melo é ter provado ser possível produzir em Portugal algo com estas caraterísticas, de alcance internacional.
O seu último livro “Os Vampiros” (como sempre editado pela Tinta da China) tem pontos de contato com o trabalho anterior (desde logo o traço de Juan Cavia), mas, e embora isto possa parecer estranho, no sentido de se demarcar dele. O pretexto (também reconhecível) é aqui uma missão militar numa terra estranha, que previsivelmente degenera; com o pano de fundo da Guerra Colonial a trazer, mais uma vez, especificidades portuguesas bem documentadas e incorporadas, numa narrativa construída com atenção aos detalhes. É certo que os autores parecem menos à-vontade, o ritmo é por vezes demasiado ponderado, há algumas incongruências e tipificações; mas as relações entre as diferentes perspetivas do país colonizador que cada elemento representa, bem como a impenetrabilidade de África para todos eles, são abordadas de uma forma credível na sua honestidade. No entanto, o fulcro dramático crucial é a muito bem gerida hesitação (aparente) entre o “real” e o “fantástico”, fazendo oscilar as espectativas do leitor quanto à natureza do Mal. Ou, dito de outro modo, se a referência é mais “Predator”, ou mais “Apocalypse Now”. Nessa perspetiva “Os Vampiros” tenta estar para “Dog Mendonça e Pizzaboy”, salvo as devidas diferenças, como “A lista de Schindler” está para “Indiana Jones”. Se isto é o que Filipe Melo fez na BD sem saber bem como, o que fará a seguir, agora que, presume-se, já terá umas luzes?

sábado, 16 de abril de 2016

Revisões


Apesar de ser sempre difícil ter opiniões consensuais sobre a sua definição, recuperar obras marcantes da banda desenhada portuguesa tem sido felizmente comum, desde contribuições de Fernando Relvas ao recente “Os doze de Inglaterra”, um trabalho editorial de José Ruy e Guilherme Valente (Gradiva). Publicada originalmente na revista “O Mosquito” entre 1950-51, esta gesta cavaleiresca situada no reinado de D. João I é sobretudo uma manifestação do talento do grande autor Eduardo Teixeira Coelho (1919-2005), cuja qualidade ultrapassou em muito o meio nacional. Desde já uma nota prévia: “O Mosquito” foi uma leitura adulta, inevitavelmente mais crítica. A latitude reservada para referências de infância, que tendemos a desculpar nas suas limitações, é, no meu caso, para a revista “Tintin” ou as BDs de super-heróis (versão EBAL).



A questão é, passe o pleonasmo, exatamente em que questão se deve focar uma abordagem a este livro. E a resposta é simples: trata-se de sublinhar o excepcional trabalho gráfico de E.T. Coelho numa edição excelente a esse nível, e em relação à qual é preciso citar o que Manuel Caldas fez com “Prince Valiant” de Hal Foster, ou livros de Gustave Doré. Na verdade sente-se falta de um mais profundo enquadramento da obra, não apenas em termos de “O Mosquito”, mas globalmente, de modo a ser mais relevante para outras gerações de leitores. O elegante trabalho de Coelho não é menorizado pela influência clara de Foster, e por ambos terem Doré como figura tutelar. A Arte não ocorre num vácuo, e neste formato o livro tende a pregar apenas aos convertidos. Por outro lado é preciso referir que “Os doze de Inglaterra” (na verdade a demanda solitária do cavaleiro “Magriço”) é sobretudo um notável trabalho de ilustração que procura ser BD, algo com que “Prince Valiant” também se debate. E nada melhor para vincar isso mesmo do que a relação tortuosa com o texto que acompanha a obra.
Na publicação original Raul Correia, diretor de “O Mosquito”, terá adaptado um romance de António de Campos Júnior, e não é por ser “excessivo, mas belo” (como se lê em vários locais) que a total reformulação do texto (por José Ruy?) é lícita, se discutível. Embora isso tivesse sido, desde logo, meritório, não de trata pois apenas de revelar os desenhos completos de Coelho, “mutilados” na publicação original para acomodar o extenso texto. A questão é que o Raul Correia argumentista tinha tendência para se assumir sobretudo como o escritor que também era, parecendo não acreditar na  linguagem da BD enquanto equilíbrio entre o que “diz” o desenho e o que refere o texto, desconfiando do primeiro ao ponto de tornar o segundo repetitivo e redundante. Algo que as inúmeras peripécias do “Magriço” no seu caminho para a glória não necessitam; sendo clássico nas suas abordagens narrativas e planificações, o talento de Coelho dá uma expressividade às personagens e um rigor ao seu movimento que dispensa o que era, no fundo, uma muleta. Embora esta opção de recuperar o desenho, que não o conteúdo original da obra, devesse ter sido mais assumida, assiste-se aqui a algo semelhante ao que acontece na Ópera, onde a identidade do libretista (e, quase, o libreto em si) é irrelevante perante o compositor e a sua música. Não é bem o que se pretende em banda desenhada enquanto linguagem, mas é uma boa solução neste caso particular.

Seja como for, é excelente ver a Gradiva assumir um rumo criativo na vertente histórica da BD nacional. Apesar de denotarem conceitos completamente distintos, este recuperado “Os doze de Inglaterra” de Eduardo Teixeira Coelho fica muito bem ao pé da recente visão de Aljubarrota em “A Batalha: 14 de Agosto de 1385”, de Pedro Massano.

Os doze de Inglaterra. Ilustrações de Eduardo Teixeira Coelho, trabalho editorial de José Ruy e Guilherme Valente. Gradiva. 112 pp., 18,70 Euros.

ESCRAVATURA


Há temas fraturantes cuja gestão raramente é linear, a não ser que se opte por versões que não deixam lugar a dúvidas, de preferência cristalizadas em História. A exploração do Homem pelo Homem é um dos melhores exemplos, no sentido em que o Holocausto ou a escravatura permitem criar narrativas e personagens complexas, mesmo amb sem que o leitor se "esqueça
dasscravatura assessed for the same insulin sensitivity tasks described aboveither directly or viaíguas e contraditórias, sem que o leitor se esqueça nunca de que lado está a razão, ou quais os valores que importam.
Prosseguindo uma aposta muito consistente na banda desenhada brasileira a Polvo lançou “Cumbe” de Marcelo D’Salete, coletânea de quatro histórias curtas pelas quais passam diferentes aspetos da vida de escravos de ascendência africana em engenhos e fazendas. Desde logo não há surpresas nas escolhas feitas pelo autor. A fuga, a revolta, mas também a assimilação e a identidade, são tópicos omnipresentes; e qualquer tentativa de romper com o “status quo” é acompanhada por retaliações e castigos, com uma intensidade que por vezes até parece excessiva. A questão é que a escravatura enquanto tema narrativo não pode dar azo a finais felizes, a não ser que se trate do seu. Não é isso que se passa neste livro, que, na verdade, existe num espaço-tempo de relações que se presumiam imutáveis. E inevitáveis.

Em “Calunga” um escravo tenta fugir levando a sua amada. Mas esta hesita, o amor revela-se mais obsessão, e a sequência de eventos mostra que a escravatura não disfarça nem desculpa outras relações de poder; na crueldade humana é sempre possível descer mais baixo. O mesmo sexismo é evidente em “Sumidouro”, desta vez na relação sexual entre dono e escrava, de como agita a família da fazenda, e de como é racionalizada hipocritamente de modo a ser social e literalmente invisível. “Cumbe” e “Malungo” são histórias de revolução e de vingança, e das motivações complexas que animam os seus protagonistas para além do “simples” desejo de liberdade. Revolta mal sucedida na primeira história, melhor na segunda, como convém à narrativa final de um livro que nunca hesita quanto ao modo como se posiciona.

As histórias de “Cumbe” caraterizam-se por fugirem à literalidade e usarem uma base contemplativa, trabalhada por diálogos escassos, por vezes mesmo fragmentados e crípticos. O estilo detalhado de desenho angular algo rígido complementa muito bem o tipo de posicionamento narrativo, no sentido em que a banda desenhada tem aqui um sabor de fotografia coreografada, de pequenas peças trágicas. O estender das histórias utilizando desenhos expressivos sem palavras representa a qualidade inexorável e opressiva das situações que rodeiam os protagonistas. Por outro lado, o que fica por dizer em termos de texto, e que se ressente a uma primeira leitura, acaba por resultar em abordagens subsequentes, no sentido em que as situações de que Marcelo D’Salete parte são tão claras no seu posicionamento e alcance que uma maior literalidade poderia condicionar o uso de uma ferramenta útil e aqui claramente assumida, mas perigosa: o óbvio. Caso as escolhas tivessem sido outras, e a narrativa mais expositiva, corria-se o risco de transfigurar o óbvio de ponto de referência para o leitor em “apenas” óbvio. Com tudo o que isso implica em termos de alienar leitores, sobretudo em temáticas muito glosadas e fortes como esta. Assim, são precisamente as qualidades crípticas, aliadas a uma representação ampla, silenciosa e rigorosa dos espaços, que ajudam “Cumbe” a transcender as armadilhas que podia ter criado para si mesmo.

Cumbe. Argumento e desenhos de Marcelo D’Salete. Polvo. 168 pp., 15 Euros.