segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Argélia

Nas últimas décadas houve sempre em Portugal uma grande editora de banda desenhada franco-belga, antes a Meribérica, mais recentemente a ASA. No entanto, esta parece hoje resumir-se aos “grandes títulos” como os novos “Blake & Mortimer” ou “Lucky Luke”. Algo a que não será alheia a saída da responsável pela edição de BD Maria José Pereira para a Arcádia (chancela da Babel que se dedica à banda desenhada). Não é pois de estranhar a aposta desta última editora numa obra de um autor consagrado, “O estrangeiro” de Albert Camus, adaptado por Jacques Ferrandez (edição original Gallimard, 2013).

Nascido em 1955 na Argélia (tal como Camus) ao nível do argumento a obra de Ferrandez mistura livros com outros autores, incluindo adaptações de nomes tão diferentes como Daniel Pennac ou Marcel Pagnol, com trabalhos próprios focando sobretudo a história colonial da Argélia, como a premiada série “Carnets d’Orient”. O interesse em Camus é pois natural, e Ferrandez já antes adaptara a história curta “L’Hôte” (2009). Do ponto de vista do desenho o ambiente luminoso de ambos os lados do Mediterrâneo transformam o traço clássico do autor, tornando-o imediatamente reconhecível, quer em banda desenhada, quer nos seus cadernos de viagem. Em “O estrangeiro” a cor em registo de aguarela é utilizada de forma muito interessante, oscilando entre o diáfano e o opressivo, e mantendo um tom de permanente distanciamento, quer do leitor em relação ao protagonista, quer deste em termos de todo o meio envolvente, de Argel ao deserto.

A história do narrador-protagonista Meurseault é na verdade um julgamento em duas partes: o julgamento concreto do tribunal que o condena pelo assassinato de um cidadão árabe desencadeado pelo comportamento do seu vago amigo de moral duvidosa Sintès; e o julgamento acessório de uma sociedade que critica o seu comportamento frio (não só, mas sobretudo) quanto à morte da mãe e ao respetivo funeral, e que terá um papel fundamental na sua condenação à morte. O distanciamento quase autista de Meurseault em relação ao que o rodeia é ainda visível na sua relação (pouco empenhada) com Marie, na falta de ambições profissionais. E é muito curioso como a sua emotividade apenas se manifesta decisivamente quando a sua falta é questionada. “O estrangeiro” é um retrato perturbador de um homem que deambula aparentemente sem ligações pelo mundo; mas o seu comportamento não-canónico será razão suficiente para justificar a pena a que é condenado? Na verdade Meurseault é condenado por ter disparado tiros a mais, que põem em causa a tese de legítima defesa, ou pela falta de trato nas relações sociais? Por não se comportar como “é suposto”?

Nesta versão de “O estrangeiro” há um problema comum em adaptações: o excesso de respeito pelo original, que faz com que o uso de uma outra forma de linguagem se fique muitas vezes pelo funcional, e não consiga transmitir bem as indecisões aparentes do texto (como na cena do tiroteio). No entanto Ferrandez também utiliza o desenho para sublinhar outros aspetos, nomeadamente relativos às personagens “Árabes” (que Camus nunca nomeia), transformando-as, de peça coletiva do absurdo que rodeia o protagonista, em indivíduos, chamando a atenção para o contexto colonial subjacente. Meurseault pode ser um estranho para o sistema sócio-judiciário que o avalia, mas esse sistema é também estranho na Argélia. O “Outro” permanece do outro lado da rua, no outro extremo das dunas, ao canto da sala de audiências.

“O estrangeiro” abre o apetite para o que poderão ser futuras apostas da Arcádia em BD. Tal como na banda desenhada “de autor” ou norte-americana seria interessante haver alguma concorrência no âmbito franco-belga.


O estrangeiro. Argumento e desenhos de Jacques Ferrandez a partir da obra homónima de Albert Camus. Arcádia. 140 pp., 22,50 Euros.


TEX

Algumas personagens, autores ou locais tornam-se, por diferentes motivos, figuras de culto. A admiração profunda de leitores pode ser sinal de um universo fascinante, ou de provincianismo “geek”. Ou algo de intermédio. Depende, como sempre, da perspectiva de quem aborda cada fenómeno, seja visitar a Dublin de Joyce, as convenções de “Trekkies” (fãs de “Star Trek”) ou procurar sinais de Corto Maltese em Veneza. Mas em banda desenhada dificilmente se encontra um fenómeno como Tex Willer.

Criado pelo argumentista Gian Luigi Bonelli e pelo desenhador Aurelio Galleppini na Itália do pós-guerra (1948) à primeira vista pouco distingue “Tex” de outros registos em que autores europeus recriaram/reinterpretaram o Velho Oeste norte-americano, como antes o escritor alemão Karl May, como mais tarde os também italianos filmes de “Western Spaghetti”. Mesmo em banda desenhada os exemplos abundam, como “Jerry Spring” (criado por Jijé em 1954) ou “Blueberry” (Charlier/Giraud, 1963). “Tex” tem, no entanto, um apelo que transcende o mero fascínio pela iconografia do “Western” (Gary Cooper terá inspirado a personagem) e a sua clássica dicotomia Bem/Mal. Desde logo o volume de histórias, patente ainda hoje nas versões brasileiras em qualquer (sobrevivente) banca nacional de jornais e revistas. Imitando a estratégia de produção em massa dos super-heróis as BDs de “Tex” foram/são criadas por vários autores. No entanto há uma manutenção de linha editorial impressionante ao nível do desenho e do argumento. “Tex” pode ser reajustado levemente, mas nunca é reinventado, como o foram quase todos os super-heróis, a essência mantém-se constante. Claro que há autores mais talentosos do que outros, mas “Tex” não desce abaixo de um patamar mínimo de qualidade; embora esse patamar (histórias muito repetitivas e previsíveis, e um desenho meramente funcional) apenas seja aceitável para os convertidos que retribuem a fidelidade, e pouco interesse a um leitor de banda desenhada com algum critério.


Então porquê falar de “Tex”? Porque há histórias que transcendem em muito a média. Aproveitando a popularidade da personagem em Portugal a Polvo recuperou uma delas, “Patagónia”. Com um desenho muito elegante e detalhado de Pasquale Frisenda, no registo realista habitual em “Tex”, o argumento de Mauro Boselli é de facto muito interessante. Primeiro, desloca a personagem para as pampas, fazendo um “Western” mais a sul, revisitando situações familiares numa nova geografia. Depois identifica e trabalha as contradições do universo. É que, se “Tex” é um justiceiro “freelancer” como convém a qualquer herói, há uma vertente humanista em relação ao que estava em jogo na época, refletida no facto de a personagem ser igualmente “Águia da Noite”, chefe honorário dos Navajos. Ou seja, “Tex” é simultaneamente “cowboy” e índio. E sabe-se qual foi o resultado desse embate, na Patagónia como no Arizona, mesmo que não transpareça sempre na ficção. Boselli não foge ao posicionamento contraditório, por vezes ingénuo, de “Tex”. 

Para além de personagens complexas, o tom de “Patagónia” é de um realismo cruel, em que a boa vontade e a razoabilidade no diálogo entre culturas esbarram na ambição (ou no “realismo”?). O desmoronar gradual da missão justiceira num genocídio em que o herói, apesar de cumprir tudo o que dele se espera, apenas limita o inevitável é uma construção inteligente na sua inexorabilidade, e o desenho vibrante de Frisenda sublinha, com alguma ironia, a desilusão inerente. Celebrando “Tex” sem o trair, mas também sem negar a História em que se insere, “Patagónia” é um complexo “Western” atípico, que se recomenda.

Patagónia. Argumento de Mauro Boselli, desenhos de Pasquale Frisenda. Polvo. 228 pp., 17 Euros.



sábado, 30 de janeiro de 2016

Legitimidade

Utilizar qualquer linguagem para questionar o mundo só pode ser bom. A não ser que não seja o mundo que queremos questionado, que as questões não sejam as que queríamos colocadas, que sejam colocadas por indivíduos que não achamos apropriados. Ou que não gostemos das respostas. Nesse caso até se podem discutir livros sem os ler.

Vem isto a propósito de duas bandas desenhadas autobiográficas muito interessantes, “Pyongyang” (Devir) e “O árabe do futuro” (Teorema), que retratam, respectivamente, a Coreia do Norte vista por um ocidental (o canadiano Guy Delisle), e a Líbia e a Síria vistos através das memórias de infância do filho de uma francesa e de um sírio (Riad Sattouf). Nenhum dos retratos é lisonjeiro. Embora denotem pesquisa e enquadramento adicional, um reduz um povo a robôs manipulados por uma elite megalómana; o outro mostra os países árabes em causa enquanto antros de desorganização e repressão.






Com o curto tempo disponível Delisle apenas procurou confirmar o que já “sabia” sobre a Coreia do Norte, e não o esconde. Não quer dizer que “Pyongyang” não seja parte de uma realidade, mas falta a componente humana, a que não teve livre acesso, dada a coreografia controlada da própria visita. Nesse caso, para alguns, nem deveria ter feito o livro; tendo-o feito, não se trata de um objecto digno de análise. Com Riad Sattouf há outra questão: não contextualiza as suas experiências (claramente traumáticas) ou a sua herança árabe, o ponto de vista acompanha a vida adulta ocidental do autor, que parece tão externo à Síria dos anos 1970-80 como Delisle à Coreia do Norte. Alguns leitores podem ir mais longe, no sentido em que um “renegado” trunfa um “ignorante”. E há outra crítica a Sattouf: a de a sua visão ser a de uma criança marcada por relações familiares, com destaque para o pai, que oscila entre a escola ocidental e as raízes sírias, gerindo contradições que parecem insanáveis (como a admiração por ditadores), e que (é uma mensagem subliminar do livro) questionam mesmo se um diálogo Ocidente-Oriente é viável.


Compare-se pois “O árabe do futuro” a outras relatos. Abordando, quer o regime do Xá, quer o dos Aiatolas, “Persépolis” de Marjane Satrapi é também enviesado e moldado por experiências familiares, mas é mais complexo em termos de enquadramento. Os muito pesquisados livros de Joe Sacco sobre a Palestina mostram gente digna, que sofre horrores sob ocupação israelita. Mas se no mundo de Sattouf parece evidente que pessoas dignas devem existir, no mundo de Sacco é igualmente lógico que existam corruptos e incompetentes que não são relevantes naquele contexto (Satrapi descreve de tudo). Tudo faz parte, com tudo temos de lidar. Uma Palestina livre seria mais ou menos democrática e boa para viver do que Israel? Deve ter o direito de existir, o resto seria com os palestinianos.

A questão é que uma BD que representasse a ideia de Paris (suja, não-igualitária, cruel) descrita por um dos norte-coreanos com quem Delisle dialoga (e que visitou França, também de forma supervisionada) podia ser mais bem recebida por alguns leitores do que “Pyongyang” (nem que fosse pelo exotismo da visão). Como obras mais solidárias sobre o mundo árabe seriam mais celebradas do que “O árabe do futuro”. Ou seja, pode-se achar que os autores não têm as credenciais para falarem do que falam, mesmo que tenham vivido o que viveram. Nos EUA há casos similares, historicamente lógicos mas que, vistos de fora, parecem surreais; como certos objetos culturais apenas poderem ser apropriados por subsegmentos da população. A palavra “nigger “(“the N word” para quem a não pode dizer) por exemplo, a propósito da qual se recomenda o monólogo do (negro) Chris Rock sobre a diferença entre “black men” e “niggers”. Que se poderia livremente traduzir (salvo as devidas distâncias) como a diferença entre “portugueses” e “tugas”, elementos da comunidade a que nos orgulhamos de pertencer versus comportamentos que nela nos envergonham.


O que me leva à questão fundamental, relacionada com a divisão imbecil mas constante do mundo em variáveis categóricas, que evitam dúvidas e facilitam o histrionismo. Ou seja, com o “Paradigma da Gravidez”. Não se está “um pouco grávida”. Não se pode ser do Porto e do Benfica. Nos EUA a identificação oficial é num só grupo étnico, independentemente de eventuais misturas. E ainda acusam a BD de ser simples e maniqueísta... Uma pessoa não pode arriscar ter um comportamento ou uma opinião identificados como sendo racista, sexista, comunista, socialista, idealista, capitalista, fascista, anti ou pró isto ou aquilo, sem ser automaticamente rotulada. E a partir daí transferem-se para o indivíduo todas as caraterísticas associadas. O pior de tudo acaba por ser a expressão “politicamente correto”, não por causa do conceito muito válido por detrás dela, mas porque é apropriado de ambos os lados de uma barricada com igual “eficácia”. Fora momentos em que todos se atropelam para estar de acordo, geralmente num contexto abstrato quanto a causas e soluções (a crise dos refugiados, por exemplo), esse tipo de atitude é muito útil, porque ajuda a definir lados de forma clara. Desse ponto de vista é interessante o modo como os comportamentos extremados se tendem, perversamente, a respeitar. Dialogar na proximidade é mais difícil do que discordar nas margens.

Tal como pontos de vistas e realidades históricas, os livros têm de ser lidos à luz das suas limitações, contextos e objetivos. Em vez de serem descartados ou louvados como base apenas no que supostamente representam, ou no que poderiam/deveriam ser. Nenhum deles nos vai, por si só, transmitir a Verdade.

João Ramalho-Santos


O árabe do futuro (Ser jovem no Médio Oriente, 1978-1984). Argumento e desenhos de Riad Sattouf. Teorema. 160 pp., 19 Euros.

Pyongyang. Argumento e desenhos de Guy Delisle. Devir. 180 pp., 22 Euros.

Naus

Nas várias histórias da Banda desenhada portuguesa há por vezes a tentação de colocar asteriscos em algumas entradas, incluindo no (reduzido) número de autores inquestionáveis. Porque se há nomes que devem figurar na história da linguagem, quer do ponto de vista nacional, quer internacional (Bordallo Pinheiro, Stuart Carvalhais, Carlos Botelho, E.T. Coelho); há outros relevantes mas claramente num patamar inferior, cujas insuficiências são desculpadas por afinidades geracionais ou estéticas. E há outros ainda que, apesar de excelentes, se tem plena noção que poderiam ter sido algo mais. Fernando Relvas podia ter sido um grande autor mundial. É um grande autor português. Chega e sobra; terá de chegar.



Para se perceber a importância de Relvas enquanto referência é útil entender, não só o seu excepcional talento gráfico e narrativo, mas o modo como foi capaz de apropriar estilos e referências para criar ambientes e discursos claramente portugueses, mas que não eram limitados por isso. Só se pode subverter o que se domina. É certo que há o Relvas humorista nonsense de “Espião Acácio”, o Relvas (sub)urbano de “L123”, o Relvas caótico das histórias do jornal “Se7e”, que na verdade mistura os outros dois. Mas há ainda o menos conhecido Relvas da BD histórica focada nos Descobrimentos de “Em Desgraça”, a que se junta agora o mais recente “Nau Negra/The Last Black Ship”, com texto em inglês (El Pep).

Misturando desenho com tecnologia digital a primeira observação óbvia é que há uma evolução notória em relação ao anterior “Li Moonface”, onde a segunda componente dominava, e do qual quanto menos se falar melhor. Na narrativa passada no Japão do início do século XVII cruzam-se personagens e histórias, jogos de gato e rato entre aristocratas e plebe, japoneses e ocidentais, portugueses e holandeses. Soldados, mercenários, exploradores, escravos libertados, religiosos, comerciantes, traficantes, aventureiros. Com o choque entre as diferentes culturas como pano de fundo, algumas personagens são exatamente o que parecem, outras disfarçam intenções, memórias e segredos; de todos sabemos algumas coisas, os protagonistas parecem esconder muito mais do que o que revelam.

“Nau Negra” é construída de sequências e momentos, individualmente consistentes, por vezes mesmo graficamente brilhantes (como a cena de trocas de mercadoria, legal e menos). Mas há também lacunas e incongruências que tardam em coalescer, algo que o texto expositivo simultaneamente revela e tenta solucionar. Alternando tipos de representação literais e simbólicos, narrativa em tempo real e “flashbacks”, ao brilhantismo espontâneo em roda livre falta um trabalho editorial, algo que, de resto, sempre escapou ao autor. Alguém que lhe dissesse quando parar, onde focar, lembrasse quem é quem na história e o que falta resolver. No final a sensação mantém-se em termos dos momentos conseguidos que refletem sobre o que podia ter sido.

Claro que isto não devia ter importância nenhuma, e se calhar nem é de bom tom mencionar, mas produzir arte com Parkinson faz com que livros como “Nau Negra” sejam, para além de tudo o mais, pequenos milagres a desfrutar.



Nau Negra/The Last Black Ship. Argumento e desenhos de Fernando Relvas. El Pep. 86 pp., 17 Euros.