sábado, 30 de janeiro de 2016

Naus

Nas várias histórias da Banda desenhada portuguesa há por vezes a tentação de colocar asteriscos em algumas entradas, incluindo no (reduzido) número de autores inquestionáveis. Porque se há nomes que devem figurar na história da linguagem, quer do ponto de vista nacional, quer internacional (Bordallo Pinheiro, Stuart Carvalhais, Carlos Botelho, E.T. Coelho); há outros relevantes mas claramente num patamar inferior, cujas insuficiências são desculpadas por afinidades geracionais ou estéticas. E há outros ainda que, apesar de excelentes, se tem plena noção que poderiam ter sido algo mais. Fernando Relvas podia ter sido um grande autor mundial. É um grande autor português. Chega e sobra; terá de chegar.



Para se perceber a importância de Relvas enquanto referência é útil entender, não só o seu excepcional talento gráfico e narrativo, mas o modo como foi capaz de apropriar estilos e referências para criar ambientes e discursos claramente portugueses, mas que não eram limitados por isso. Só se pode subverter o que se domina. É certo que há o Relvas humorista nonsense de “Espião Acácio”, o Relvas (sub)urbano de “L123”, o Relvas caótico das histórias do jornal “Se7e”, que na verdade mistura os outros dois. Mas há ainda o menos conhecido Relvas da BD histórica focada nos Descobrimentos de “Em Desgraça”, a que se junta agora o mais recente “Nau Negra/The Last Black Ship”, com texto em inglês (El Pep).

Misturando desenho com tecnologia digital a primeira observação óbvia é que há uma evolução notória em relação ao anterior “Li Moonface”, onde a segunda componente dominava, e do qual quanto menos se falar melhor. Na narrativa passada no Japão do início do século XVII cruzam-se personagens e histórias, jogos de gato e rato entre aristocratas e plebe, japoneses e ocidentais, portugueses e holandeses. Soldados, mercenários, exploradores, escravos libertados, religiosos, comerciantes, traficantes, aventureiros. Com o choque entre as diferentes culturas como pano de fundo, algumas personagens são exatamente o que parecem, outras disfarçam intenções, memórias e segredos; de todos sabemos algumas coisas, os protagonistas parecem esconder muito mais do que o que revelam.

“Nau Negra” é construída de sequências e momentos, individualmente consistentes, por vezes mesmo graficamente brilhantes (como a cena de trocas de mercadoria, legal e menos). Mas há também lacunas e incongruências que tardam em coalescer, algo que o texto expositivo simultaneamente revela e tenta solucionar. Alternando tipos de representação literais e simbólicos, narrativa em tempo real e “flashbacks”, ao brilhantismo espontâneo em roda livre falta um trabalho editorial, algo que, de resto, sempre escapou ao autor. Alguém que lhe dissesse quando parar, onde focar, lembrasse quem é quem na história e o que falta resolver. No final a sensação mantém-se em termos dos momentos conseguidos que refletem sobre o que podia ter sido.

Claro que isto não devia ter importância nenhuma, e se calhar nem é de bom tom mencionar, mas produzir arte com Parkinson faz com que livros como “Nau Negra” sejam, para além de tudo o mais, pequenos milagres a desfrutar.



Nau Negra/The Last Black Ship. Argumento e desenhos de Fernando Relvas. El Pep. 86 pp., 17 Euros.


Testosterona

Há prazeres e admirações (secretos ou menos), que tendem a ser rotulados como “masculinos” (embora essa seja uma posição misógina), e que poderiam ser classificados como (mais) ofensivos, se não estivessem algo disfarçados. Como a violência extrema de alguns desportos organizados, ou em histórias “hardboiled” onde a amoralidade tem um toque de decência que evita o niilismo extremo. Frank Miller ou Martin Scorsese poderiam ser citados neste contexto.

O multifacetado escritor de policiais norte-americano Donald Westlake (1933-2008) criou um pseudónimo que reflete bem esse modo de estar. Publicado em 1962 “The Hunter” foi o primeiro dos livros de “Richard Stark”, a maioria protagonizada pelo criminoso profissional Parker. O estatuto icónico do livro é marcado por duas adaptações cinematográficas (“Point Blank” de John Boorman, com Lee Marvin, 1967; “Payback” de Brian Helgeland, com Mel Gibson, 1999), embora sempre com modificações ao original, justificadas porquanto o que importa é o tom. Um tom de inexorabilidade que marca a vingança de um (super)criminoso traído pelos seus comparsas (incluindo a mulher), e que é captado brilhantemente pelo canadiano Darwyn Cooke em “Parker: O caçador” (Devir).




Cooke gere diferentes mecanismos nesta adaptação. Há sequências “clássicas” em banda desenhada, interligadas com momentos de texto ilustrado onde é dado espaço à prosa, e ainda cenas em que o desenho consegue expressar sozinho as subtilezas da história, sobretudo depois das coordenadas estarem definidas. Por outro lado, o estilo lembra as reinterpretações pseudo-retro da “linha clara” franco-belga, em que o estilo de Hergé ou Jacobs foi recriado por novos autores, adaptado a personagens mais complexas, e sobretudo a protagonistas cujo posicionamento era mais dúbio do que “Tintin”. Para além da influência de nomes clássicos da BD norte-americana do policial/horror (como Alex Toth), com o seu estilo angular Cooke evoca Serge Clerc, Yves Chaland ou Daniel Torres. E o uso do preto e branco matizado, e não das cores planas habituais na linha clara, modifica totalmente o modo como o leitor aborda o desenho, reforçando o tom sombrio, num registo visual que lembra uma versão mais negra da série televisiva “Mad Men”.

Narrativamente a história desenvolve-se sem surpresas. Contra tudo e contra todos Parker vai paulatinamente ajustando todas as suas contas, recorrendo a todos os meios e surpreendendo quem julga estar a lidar com apenas um homem isolado “normal”. Tal com como as personagens de Frank Miller em “Sin City” Parker é um super-herói em espírito, que não em poderes ou uniformes. Claro que há danos colaterais (sobretudo mulheres), e Parker fica chateado com isso. Mas nada o para. Podia ter morrido no fim? Podia, e a história funcionava na mesma. Mas era inútil, porque a personagem é sobretudo uma ideia, um golem para si mesmo, que assim vive para segregar testosterona noutras histórias.

“Parker: O caçador” é um livro muito bem feito, visualmente soberbo, que glorifica o modo como se pode ser um sacana e, ao mesmo tempo, ter princípios que elevam a personagem acima dos outros sacanas. Porque há três defesas universais para os sacanas: jurar que nada de útil se faz sem sacanice, declarar toda a gente sacana, e apontar sacanas piores. O mundo, em resumo.



Parker: O caçador. Argumento e desenhos de Darwyn Cooke, adaptando obra “The Hunter” de Richard Stark (Donald Westlake). Devir. 140 pp., 20 Euros.